No Outono de 1941

por Nuno Rosmaninho | 2019.08.25 - 17:17

No Outono de 1941, falou-se muito da quebra de assistência nos jogos de futebol e do «falso amadorismo». Não houve a Volta ao Luso e, que eu tenha observado, também falhou a Volta dos Campeões, na Figueira da Foz. No dia 10 de Outubro, o Secretariado da Propaganda Nacional sugeriu à CP que pintasse o barracão de madeira que servia de estação ferroviária das termas da Curia. Ali posto a título provisório em 1926, aquele triste imóvel estava deteriorado e sujo. O ofício enviado para esse efeito recomendava o uso de uma «cor alegre» e a aplicação de «plantas trepadeiras e vasos com flores».

O III Reich parecia glorioso. As tropas alemãs lançavam-se como valquírias na direcção de Moscovo, mas em vez de escolherem os mortos heróicos, matavam, violavam, destruíam. Em Portugal, os sucessos da guerra chegavam ampliados por uma grandiosa exposição de arquitectura germânica, inaugurada com a presença do arquitecto Albert Speer, que haveria de ser também um ministro do Armamento eficaz e sem escrúpulos. A nata política portuguesa reuniu-se para lhe escutar as palavras, traduzidas por Raul Lino, que, nesta época de fastígio do classicismo monumental totalitário, se deixou inebriar pela expressão política da arte e pela possibilidade de proibir superiormente o modernismo artístico e o cosmopolitismo cultural.

As maquetes chegaram num comboio que atravessou Lisboa ostentando a cruz gamada do nazismo. Isso pareceu muito bem a inúmeras pessoas, desejosas de verem a supremacia alemã na Europa. Os jornais encheram-se de elogios à exposição, à qualidade das maquetes, à minúcia das réplicas, ao esplendor da estética, à representatividade política, enfim, a tudo o que servia para enaltecer a Alemanha e questionar, por comparação, a pobreza de Portugal.

Estaline padecia pelos seus erros políticos e pelo desastre militar que, em meados de Julho, já se traduzia na perda de dois milhões de homens. Hitler vivia naquele estado de inebriamento a que na minha aldeia se chama andar num sino, antevendo a queda de Leninegrado e Moscovo. No dia 4 de Outubro, ao jantar, Hitler estava bem-disposto. A guerra na Rússia corria bem. Calculava que, nos cinquenta anos seguintes, ou seja, até 1991, cinco milhões de quintas seriam ali exploradas por alemães, que manteriam a ordem pela força. Um acordo com a Inglaterra haveria de dar à Alemanha as colónias estritamente necessárias para produzir chá e café, talvez os Camarões e o Congo Belga ou uma parte da África Equatorial Francesa.

No jantar do dia seguinte, Himmler deu as suas impressões de Kiev. Na sua opinião, oitenta a noventa por cento da população local «era dispensável». Os dialectos germânicos deveriam desaparecer em benefício de um alemão unificado que haveria de ser a língua de comunicação em toda a Europa.

A 13 de Outubro, o ministro da Economia do Reich mostrou a Hitler que os territórios do leste europeu permitiriam acabar com o desemprego na Europa. Haveria ligações fluviais dos rios Don e Dniepre com o mar Negro e o rio Danúbio, por onde fluiria o petróleo e os cereais para a Alemanha. Walther Funk conduziu Hitler ao êxtase: «A Europa – e não os Estados Unidos – será a terra das possibilidades ilimitadas.»

No dia 17 de Outubro, Hitler recebeu Fritz Todt, que lhe deu a ver novas estradas estendendo-se pelos territórios conquistados. As auto-estradas chegariam à Crimeia e ao Cáucaso. Estas vias e as novas cidades alemãs seriam construídas em vinte anos, com três milhões de prisioneiros de guerra escravizados. Hitler imaginava dez milhões de colonos alemães, escandinavos, holandeses, flamengos e até norte-americanos. A população eslava seria reduzida à indigência.

Feliz com esta expectativa, Hitler suspirou por não ter menos quinze anos para ver os frutos da sua megalomania. Faltavam três anos e meio para cometer suicídio.

(Devo a Ana Paula Figueira Santos a fotografia do apeadeiro da Curia em 1930.)

Nuno Rosmaninho