Não temos licenciados a mais, senhora chanceler!

por Acácio Pinto | 2014.11.10 - 13:19

 

 

Fomos brindados, há uma semana, com uma declaração desconcertante da chanceler alemã, Angela Merkel: “Portugal tem demasiados licenciados”.

Estas declarações, ditas ante empresários alemães, são reveladoras do verdadeiro sentimento de uma certa casta de políticos que têm vindo a dominar esta velha Europa nestes últimos tempos, em que os valores humanistas, da solidariedade, da liberdade, da igualdade, tão secundarizados têm sido.

No fundo o que esta declaração quer dizer é que há uns que estão talhados basicamente para o trabalho fabril, para serem operários e outros, pela nacionalidade de nascimento, têm a “suprema responsabilidade” de serem dirigentes e investigadores.

Bom, mas será que temos mesmo licenciados a mais?

Não, não temos. A média da UE é de 25,3% de população com cursos superiores, a Alemanha tem 25,1% e Portugal, tem 17,6%. Ora aqui estão os licenciados a mais portugueses!

Sinceramente, senhora chanceler!

Mas há mais. Um dos grandes objetivos da UE é o de aumentar para, pelo menos, 40% a percentagem da população na faixa etária dos 30-34 anos que possui um diploma do ensino superior. Pois bem, Portugal tem neste momento 29,2%, quando a UE tem uma média de 36,8%. Portanto, também aqui Portugal está muito longe dos valores europeus e tem muito caminho para andar porque temos licenciados a menos e não licenciados a mais.

Mas há outro aspeto a considerar. A outra vertente das declarações de Merkel era a de que aumentássemos os alunos nos cursos profissionais, em detrimento dos licenciados.

Agradecemos a sugestão, mas o caminho começou há muito também a ser feito. Ainda estamos aquém dos valores da União Europeia, mas durante os dois últimos governos do PS triplicou-se o número de alunos no ensino profissional, passando dos cerca de 30.000 para mais de 100.000 alunos, o que nestes três últimos anos não teve a mesma correspondência.

A média de alunos da UE em cursos profissionais é de 50%, quando em Portugal, hoje, ela atinge cerca de 40%.

Estamos portanto com um duplo desafio pela frente: aumentar o número de licenciados e aumentar o número de alunos nos cursos vocacionais. Em suma, assentar no aumento das qualificações o projeto de competitividade e de desenvolvimento do nosso país.

Só que para resolvermos este desafio precisamos de outro governo e de outras políticas. Não é com cortes orçamentais, como aquele que a educação vai ter em 2015, de 700 milhões de euros, e com políticas elitistas que estão a colocar a igualdade de oportunidades, no acesso à educação, em segundo plano, que lá chegamos.

Este governo está esgotado. Precisamos de políticos que pensem diferente e, obviamente, só pensando diferente podem fazer diferente.

Deputado do Partido Socialista (PS) na XII Legislatura eleito pelo Círculo Eleitoral de Viseu

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