Falta coração à Economia

por Alberto Neves | 2014.01.16 - 06:59

 

António Damásio foi distinguido nos E.U.A. com o Prémio Grawemeyer 2014 na área da Psicologia, sendo condecorado pela hipótese que apresentou sobre os marcadores somáticos, mostrando que as emoções influenciam a tomada de decisão.

Daniel Goleman, psicólogo e jornalista consagrado, autor do bestseller internacional “Inteligência Emocional”, regressa com uma análise pioneira sobre a importância do foco/atenção enquanto recurso, numa época de distrações inesgotáveis.

Kenneth Rogoff, que foi economista chefe do FMI, tornou-se dos economistas mais polémicos da actualidade, por apresentar na conferência de janeiro de 2014 da Associação Americana de Economistas, um artigo que compara a actual depressão com a que começou em 1929. No caso de Portugal, constacta mais de 10% de queda do PIB per capita e só para 2027 estima a recuperação económica. O autor sugere uma solução: mudar hábitos de consumo e aplicar restrições aos movimentos de capital.

Oliver Blanchard, actual economista chefe do FMI, e Larry Summers, que foi presidente do conselho económico de B.Clinton, concordam com a terapia inflacionária moderada. Exactamente a solução que os actuais “ditadores” do nosso comportamento – o BCE e a Comissão Europeia – não querem ouvir falar e a quem outorgamos tanto poder sobre as nossas vidas.

A crise, o desemprego e o facto de a maioria das pessoas se terem submetido durante anos à lógica de crédito ao consumo, mais do que nunca, estão a produzir os seus efeitos. Por isso, os dias de hoje, exigem novas ideias para lidar com um mundo em mudança constante. Não nos podemos permitir ser moldados por hábitos considerados normais pelo consenso social e que, na realidade, constituem foco de resistência para a inovação e a criatividade.

O psicólogo Daniel Kahneman, vencedor do Prémio Nobel de Economia de 2002, já tinha explicado o comportamento aparentemente irracional da gestão do risco, defendendo que existe uma tendência “patológica” para resistir à mudança. Ao ver ou sentir algo que desperta alguma memória, o cérebro define o “vulgar” como “correto”, da mesma maneira que o novo é descodificado como passível de desconfiança.

Ao contrário do que vulgarmente acontece, as pessoas com mérito deviam, por regra, ser aquelas que pensam livremente, lutam para remover obstáculos mentais e emocionais, vivem de forma íntegra, simples, sincera e arcam com os riscos de serem originais. Esses são os verdadeiros normais, por não colocarem máscaras ou simular situações.

A normalidade conduz a vícios, criando distorções básicas na percepção da realidade e impacto na resistência à mudança e/ou na indiferença que gera uma multiplicidade de outros sentimentos, como o ciúme, a rivalidade, a competitividade desenfreada, a depressão, o isolamento, o medo e a desconfiança. Variáveis intangíveis investigadas hoje na Economia.

A normalidade acabou por hipervalorizar o uso do hemisfério cerebral esquerdo, responsável pelas nossas funções racionais, lógicas e analíticas. O hemisfério direito, sede das nossas intuições, pensamentos criativos e sintéticos, acabou por ser desvalorizado, para prejuízo do nosso sentimento de autonomia e empreendedorismo.

Falta coração à política e à economia. Daí resulta a crise de liderança a que assistimos. É necessário integrar as funções psíquicas (Razão, Emoção, Intuição e Sensação). Não pode existir pior normalidade do que aquela a que assistimos quando somos confrontados com líderes medíocres que estimulam o consumo por via do facilitismo.

A “cura” da “normose” só vai ser possível quando houver no mundo gente suficiente disposta a questionar tudo o que achamos normal. Isso vai demorar anos para acontecer. Ninguém gosta de sair da sua zona de conforto, mas é dessa forma que podemos alargar os horizontes mais do que julgávamos possível. Vencer esta normalidade colectiva, que nos limita e condena à parcialidade alienante, pode ser o maior desafio que estamos a enfrentar. O processo de saída da zona de conforto precisa de ser agregado a uma cultura onde se dê voz à liberdade individual e à mobilização/consciencialização da sociedade civil.

Será que teremos que inventar uma “normoterapia” para combater esta estranha “doença” que hipoteca o futuro e estimula a ânsia de querer o que não se precisa?

Referências:

The Economist (11-01-2014) http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21593418-leading-american-economists-argue-desperate-times-call-desperate

– The New York Times http://www.nytimes.com/2013/11/03/books/review/focus-by-daniel-goleman.html

– Daniel Goleman on Focus  The Secret to High Performance and Fulfilment – YouTube

– Bloomberg News (03-01-2014)

http://www.bloomberg.com/news/2014-01-03/reinhart-rogoff-find-hangovers-in-bank-crises-cutting-research.html

Natural de Viseu. Licenciado em Psicologia pela Universidade de Coimbra. Mestre em Economia e Pós graduado em Gestão de Pessoas (pré-Bolonha), Certificado em “Behavioural Coaching”, Mediação de Conflitos e Terapia Sistémica. Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Construtivistas, Associação Portuguesa de Coaching, Associação Portuguesa de Técnicos e Gestores de Recursos Humanos e Federação Nacional de Mediação de Conflitos. Certificado pela Entidade Reguladora da Saúde e acreditado na D.G.P.J. do Ministério da Justiça.

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