Detesto que me enganem… com números!

por Norberto Pires | 2014.02.05 - 17:28

 

Estive a ver a estatística do INE (Instituto Nacional de Estatística) sobre o desemprego em Portugal. Os meios de comunicação social e a propaganda, começa a ser muito difícil distinguir uma coisa da outra, clamavam hossanas a uma taxa de desemprego que estava a baixar. Fixe. Fico mesmo muito contente. Mas como eu ando na rua, falo com as pessoas e não sinto nada disso, fui ver o números e fiz umas contas usando a mesma folha de Excel do INE. Deixo o quadro abaixo e o link para o ficheiro Excel, para que vocês verifiquem os dados e as contas.

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Quadro 1: números do INE de pessoas Empregadas e Desempregadas, com variação trimestral e anual (valores em milhares).

A população empregada aumentou 21 800 quando comparámos o 4º trimestre de 2012 com o 3º trimestre de 2013, e 7 900 quando comparámos esse trimestre com o seguinte, ou seja, com o 4º trimestre de 2013. A variação anual, de 2012 para 2013, foi mais 21 900 pessoas empregadas. Ok. Nem que fosse só 1 pessoa, era positivo, porque era menos uma família desesperada, cujo dia-a-dia deixa de ser vivido com esse flagelo do desemprego.

No entanto, olhando para a população desempregada, os números não coincidem por muito larga margem. A variação anual foi de – 96 500 pessoas, ou seja, registaram-se menos quase 100 mil pessoas desempregadas entre 2012 e 2013.

Mas se no final de 2013 havia mais 29 700 pessoas empregadas, quando comparado com 2012, e o número de pessoas desempregadas diminuiu, no mesmo período, 96 500, o que aconteceu às 96 500 – 29 700 = 66 800 pessoas que deixaram de estar oficialmente como “desempregadas” e não aparecem como “empregadas”?

E reparem no Grupo Etário entre os 15 e os 34 anos. Fiz outra tabela para ver isto em detalhe.

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Quadro 2: números do INE de pessoas, no grupo etário dos 15 aos 34 anos, Empregadas e Desempregadas, com variação trimestral e anual (valores em milhares).

Há menos 26 500 pessoas, jovens neste caso, empregadas em 2013, quando se compara com 2012. Ou seja, o país perdeu 26 500 empregos neste grupo etário dos 15 aos 34 anos. Mas o mais paradigmático é que existem também menos 62 500 desempregados, no grupo etário 15-34 anos, quando se compara 2013 com 2012. Ou seja, não se criou emprego, antes pelo contrário foram destruídos mais de 26 mil postos de trabalho (neste grupo etário), e o número de desempregados no mesmo grupo etário também diminui muito.

O que é feito desta gente toda? Emigrou? Desistiu? Onde anda? O que estão a fazer? Ninguém se preocupa?

Custa-me que não se façam estas perguntas.

Custa-me que não se procurem as respostas.

Custa-me que uma delas seja que “Portugal não é para jovens”.

Nem para velhos.

Nem para os outros.

E detesto que me tentem enganar… com números.

Link para Ficheiro Excel com dados e cálculos

 

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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