Demência: a importância da família

por José Carreira | 2014.03.13 - 10:12

O êxito das sociedades desenvolvidas repercute-se, felizmente, na longevidade das pessoas. A esperança de vida tem vindo a aumentar nas últimas décadas, beneficiando dos avanços da técnica, da melhoria nos cuidados de saúde, de alterações dos hábitos alimentares e, genericamente, das condições de vida. São cada vez mais comuns os idosos com mais de 80 anos. O “envelhecimento está a envelhecer”. Este processo, associado à baixa taxa de natalidade, provocou a “inversão” da pirâmide etária, deixando de ser triangular, estreitando-se a base e dilatando-se o vértice.

Com o avanço da idade, aumentam das doenças crónicas e degenerativas. Entre as doenças de maior prevalência, uma das mais inquietantes é a demência (Alzheimer ́s Disease International, 2009). A demência além de ser um enorme problema para o doente, torna-se um desafio para a família e para os profissionais que prestam cuidados. Um problema crónico ao qual o doente se torna incapaz de dar resposta, sem a ajuda da família e de profissionais. O carácter progressivo da enfermidade torna o doente cada vez mais dependente da família que, em regra, se torna a principal provedora dos cuidados. Logicamente, a variedade e quantidade de exigências, a longo prazo, obrigará a que as famílias recorram às instituições de saúde e sociais.

A resposta a este problema poderá ser melhor ou pior, na medida em que as interações entre o doente, a família e os profissionais de saúde e de ação social resultem na conjugação de esforços. Na primeira linha de ação estão as famílias e o “olhar” que estas possam ter em relação à doença. Se a estigmatização e a “conspiração do silêncio” perderem terreno para a normalidade e a fluidez da comunicação, os cuidados prestados poderão proporcionar a melhoria da qualidade de vida dos doentes.

O impacto da demência na família afeta a sua estrutura interna, a relação com a comunidade e os aspetos emocionais. Nesta perspetiva, o trabalho a realizar com as famílias será decisivo para que o processo de acompanhamento do doente seja mais eficiente. Os profissionais de trabalho social poderão ter, neste contexto, um importante papel a desempenhar. Estes técnicos poderão ser uma peça-chave para, com base na história familiar, entender as dinâmicas e os diferentes ciclos vitais associados à história de vida do doente. Considero que será de extrema utilidade proceder a uma análise multigeracional que permita analisar recursos e vulnerabilidades da família e de cada um dos seus membros para que possa ser traçado um modelo de ação que permita à família potenciar as capacidades e minimizar os constrangimentos.