CATARINA HEBDO MARTINS

por José Carreira | 2016.02.28 - 11:10

 

 

O deslumbramento é perigoso. Alguns dirigentes do BE estão deslumbrados. Talvez tenham razões para flutuar, como se saltitassem suavemente de nuvem em nuvem. Sentem-se nas nuvens e até têm motivos para isso. Afinal de contas, conseguiram deixar para trás o PCP e, de certo modo, manietar o PS.

O limite parecia ser o céu, mas bastou um cartaz para descerem ao inferno. Sabemos que as polémicas nas redes sociais são passageiras e desaparecem tão rapidamente como aparecem, mas deixam marcas.

Os criativos do BE não devem continuar a falar com os colegas da frente de esquerda que fizeram os cartazes da campanha de António Costa nas últimas eleições legislativas. São má influência, a julgar pelos erros acumulados, prejudicando a campanha do atual primeiro ministro.

Amigos, amigos, cartazes à parte… Marisa Matias e Francisco Louçã já demonstraram o desagrado com a ideia plasmada num cartaz infeliz e de notório mau gosto.

Não seria muito preocupante, se fosse apenas uma ideia e um cartaz, mas não é. Penso que este inconseguimento é revelador de pulsões reprimidas que agora são exteriorizadas porque os dirigentes bloquistas sentem-se poderosos e intocáveis, o elo mais forte de uma corrente de esquerda algo frágil.

Costuma dizer-se que para se conhecer bem alguém é dar-lhe poder. O Bloco conquistou algum poder, impôs bastante o seu poder e considera ter muito poder. Portanto, podem tudo, até “hebdoizar” a sua comunicação. Esqueceram-se que a cópia é sempre pior do que o original, esqueceram-se que não são um jornal satírico mas um partido político, esqueceram-se que muitos dos seus eleitores são crentes, esqueceram-se que a lei já foi aprovada, esqueceram-se que, habitualmente, o partido não mistura política e religião, esqueceram-se de ter os pés na terra. Quanto à cabeça, essa parece manter-se nas nuvens tal como as dos seus camaradas espanhóis do Podemos. As reivindicações para um possível acordo de governo, deixaram a nu os objetivos de Pablo Iglesias. As suas exigências deixaram bem claro que o discurso não corresponde ao plano de ação.

Palavras doces e ideias populista encantam os eleitores. Conquistados os votos, a radicalização ideológica ganha eco, fazem-se exigências até então criticáveis e adoptam uma postura reveladora de alguma sobranceria.

Também foi giro e fofo, ouvir a mana da Mariana Mortágua defender que a ADSE não deve ser extensível a todos os portugueses, deve ser uma singularidade da função pública. Justifica esta ideia com a defesa do SNS… Pois claro, caso todos nós pudéssemos usufruir da ADSE, seríamos clientes dos serviços de saúde privados, arruinando-se o excelente SNS, o mesmo que os beneficiários da ADSE, segundo a sua lógica, não utilizam…

 

Joana Mortágua dixit:

“A abertura da ADSE a outras pessoas que não funcionários públicos (e respectivos familiares) “não faz sentido”, porque “estaria a alargar o acesso de utentes aos hospitais privados com prejuízo claro para o SNS”. Por isso, “a ADSE deve manter-se como um sistema fechado aos funcionários públicos e às suas famílias”.

 

Quem fala assim não é gaga…

As lógicas da menina Joana:

Uns, os funcionários públicos, beneficiam da ADSE;

Uns, os funcionários públicos, são tratados nos hospitais privados;

Outros, os não funcionários públicos, não poderão beneficiar da ADSE;

Outros, os não funcionários públicos, têm que utilizar o SNS;

Defende o SNS mas para os não funcionários públicos.

O SNS tem qualidade mas não serve para os funcionários públicos que recorrem aos hospitais privados.

 

Estou confuso, o que é bom para uns não serve para outros?