“Cancros do Sistema”

por José Carreira | 2014.04.15 - 19:38

Paulo Guinote é autor do blogue “A Educação do meu Umbigo” que originou a publicação do livro “A Educação do meu Umbigo: Um livro que incomoda ministros e mobiliza professores” (Porto Editora, 2009). A julgar pelo “meu umbigo”, talvez não seja despiciendo pensarmos que o senhor se tem em boa conta. Até é capaz de incomodar ministros e mobilizar professores! Parabéns, senhor professor!

Presunção e água benta cada um toma a que quer…

O senhor professor decidiu criticar (tem direito a isso) um dos mais recentes livros de Maria Filomena Mónica: “A Sala de Aula” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014), tal como tem vindo a fazer com alguns dos artigos de Carlos Fiolhais, publicados no jornal Público.

Estalou o verniz, a autora (de quem confesso ser admirador), não gostou das críticas e respondeu no artigo “A escola pública” publicado no Público.

Estes ataques e contra-ataques já tiveram um mérito, comprei num pack os livros “A Sala de Aula” e “Diários de uma Sala de Aula”, ambos editados pela FFMS.

Ainda não li os dois, mas iniciei a leitura do primeiro. Não farei a apologia da autora em detrimento de Paulo Guinote, até porque não precisa.

Se é verdade que as descrições feitas, ao longo do livro, não poderão ser generalizadas a todas as escolas, também é verdade que muitas das suas observações serão corroboradas por muitos professores.

Não tendo ainda terminado a leitura do livro, há dois elementos que me merecem atenção.

O primeiro reside no fato de o Ministério da Educação ter começado a “preocupar-se, de forma patológica, com a posição do país nas tabelas internacionais.”, com os (maus) resultados que todos conhecemos.

O segundo elemento que também critico, há muito anos, é o paradigma que sustenta o ensino profissional no nosso país. Um dos “cancros” do sistema são os Cursos de Educação e Formação, vulgo CEF. “Note-se que, por acumularem os piores alunos, os CEF são bombas prestes a explodir. Ainda por cima, estes alunos raramente arranjam trabalho.” Há escolas que colocam os alunos destes cursos em determinado pavilhão, sendo estes estigmatizados pela restante comunidade educativa, sendo considerados incapazes, imprestáveis, alunos de 2.ª (para usar um eufemismo…). Sempre que me falam dos CEF, lembro-me do professor doutor Vitor da Rosa que lecionou um cadeira na especialização de Minorias e Cidadania que frequentei no Porto. A sua experiência permitia-lhe constatar que, na procura de um novo emprego, o último a ser contratado é o habitante pobre de um bairro social e é o primeiro a ser despedido quando surgem dificuldades.

O mesmo se passa com estes alunos, os últimos a ser atendidos e os primeiros a serem discriminados. Basta analisarmos quem são os professores atirados para o centro do furacão, em regra os contratados, deslocados do seu contexto e com pouca experiência. Logicamente, os professores do quadro são destacados para as boas turmas…

A escola deveria ter como missão esbater as desigualdades sociais, mas, na verdade, “mais vale dar aos filhos dos pobres uma aprendizagem e um ofício do que mantê-los como repetentes num sistema que não se presta ao que eles querem ou podem dar”