AQUILINO “CINCO RÉIS DE GENTE” – A MÃE: UM AMOROSO RETRATO (3)

por Alberto Correia | 2016.03.14 - 12:13

 

 

 

3 – A MÃE – UM AMOROSO RETRATO    –  Recortes de infância

À memória de minha mãe, humilde, boa e religiosa sem ser pelo interesse de ganhar o Céu.

O Livro do Menino-Deus, Dedicatória.

 

Chamava-se Mariana. Rosário, de apelido, e por “rosário” de contas negras rezava as contas que lhe corriam entre os dedos.

Levantava-se cedo, mal o sino da torre dava o toque de rezar. E era o lume aceso, a mesa posta, toalha branca, de linho, o cântaro com água, lenhas ao braçado, a roda-viva dos trabalhos, os incansáveis dias de mulher.

E era a rega da horta, alfazema a florir e os manjericos a crescer pelo Verão fora num vaso da janela ensoleirada. Pés de cidreira plantados no quintal, um raminho de flor de sabugueiro pendurado no frontal e tília, em flor, guardada num saquinho, para chás. E a arca com lençóis lavados.

Dia de Natal. Missa do Galo. Tamanquinhas de mulher a bater chão de calçada, cantares de Réis, folias de Entrudo e o ramo bento de louro e alecrim do Domingo de Ramos que ela guardava para queimar, num pratinho, ao rebentar em Maio, das trovoadas.

E os pobres de Quintela que passavam a pedir dois punhados de castanhas.

Choros de filho pequeno. Rezas ao “quebrado”. Promessas. Romarias de Verão à Senhora da Lapa, a égua Inácia colgada com a colcha de lã vermelha tecida pela irmã Custódia. Votos cumpridos. Três voltas de joelhos à roda da capela.

E o seu menino que está quase a ir para a Escola!…