Apartheid Europeu

por José Carreira | 2013.12.21 - 19:06

Pela primeira vez assisti a uma festa escolar da minha sobrinha de sete anos, a festa de Natal. Uma festa simples e bonita. A professora reuniu os pais na sala da turma, cantaram, contaram histórias, lancharam e conviveram. Gostei de observar o convívio entre culturas. A ascendência das crianças da turma é multiétnica: Portugal, Espanha, Albânia, Índia, Turquia, Itália, Marrocos, Alemanha…
A professora, “frau” Nicole, faz um trabalho fantástico na inclusão de todas as crianças, que convivem alegremente, independentemente da cor, da religião, da cultura.
A minha família vive há anos em Estugarda, em Ostenplatz, a poucos minutos do centro da cidade (Stadtmitte). Pelo menos duas vezes por ano, aproveitando as viagens low cost, o meu destino é a Alemanha e o aconchego dos entes queridos. Um “porto de abrigo” que não dispenso…um suplemento de alma!
Portugal tem, ao longo dos anos, visto partir milhares de homens e mulheres para outros pontos do globo à procura de melhores condições de vida. Mas, importa refletir, as mentalidades mudaram e o emigrante de hoje, mais qualificado e desiludido com a falta de oportunidade no nosso país, já não sonha com o regresso, após a construção de uma casa na “terra natal” e a aquisição de um carro. Emigrar poder-se-á tornar numa viagem sem retorno, esvaziando o nosso país de capital humano e económico (ou não estivessem em queda livre as remessas dos emigrantes).
Paralelamente a esta preocupação, há uma evidência que me azucrina a mente, o “fantasma do racismo”. Ouvi muitos discursos de dirigentes europeus, aquando da morte de Nelson Mandela, todos eles elogiosos para com o homem que venceu o ódio racial e o apartheid. Mas, há, na Europa, um paradoxo entre o discurso e a realidade. O jornal El País (15/12) fez um magnífico trabalho de investigação intitulado precisamente “Visita a los ‘apartheid’ europeos“. Numa Europa em que a crise persiste, o desemprego afeta 25 milhões de pessoas e há 80 milhões de pobres, a xenofobia e o racismo não param de crescer. A reportagem tem o foco nas comunidades mais discriminadas: ciganos e judeus. Existem bairros só para estas comunidades, guetizando-as. Crianças de etnia cigana são integradas em turmas para alunos com deficiência e há restaurantes em que não podem entrar. “A segregação nas escolas é um problema que afeta toda a Europa de Leste. E emerge como um símbolo de um mal maior que percorre o continente: o ódio às minorias, com os ciganos, os árabes, os judeus e os negros como comunidades mais perseguidas.”
O lado mais visível desta realidade tem sido protagonizado por expulsões sucessivas de ciganos. Berlusconi (2008) deu o mote em Itália e Sarkozy (2010) deu-lhe continuidade. “Assim o apartheid económico e racial e ódio ao diferente começam a ser uma senha de identidade em muitos dos 28 países da UE.” Os partidos de extrema direita, ultranacionalistas, têm vindo a ganhar expressão e a colher a simpatia de milhares de jovens. Veja-se o que tem vindo a ocorrer na Holanda (quem diria…) e com a frente nacional em França. As eleições europeias poderão funcionar como barómetro, para que se perceba qual a efetiva capacidade de penetração dos discursos das direitas populistas e que estragos podem estar a ser causados pela aparente legitimação do discurso xenófobo nas redes sociais.
Hoje as vítimas são os ciganos, os judeus, os árabes e os negros. Amanhã (?) serão os portugueses, os espanhóis, os italianos, os gregos…
Considero que a cultura da nossa cidade, do nosso país, da Europa já não é branca e masculina, é babélica e politeísta. Neste sentido, A Europa não pode deixar-se impregnar por discursos populistas, extremistas e xenófobos. O berço da civilização não pode ser palco para atos bárbaros que ferem de morte a dignidade humana.
Para terminar, Lampedusa deve ser motivo de vergonha para cada um de nós, europeus, brancos e “civilizados”.
Não durmo descansado enquanto a ideia da existência de“raças menores” ou até “raças malditas se propaga. E o leitor, dorme?