Afinal, o Lúcio veio de pregar uma coelheira

por Nuno Rosmaninho | 2019.06.29 - 06:45

Quinta do Cabo (Mata), 26 de Junho de 2019.

Ex.mo Senhor Escrivão,

Tão satisfatório é escrever-lhe uma carta como penoso o dever de o corrigir. Tenho apontado faltas desde que confundiu os momentos históricos de abertura da mercearia do seu avô Maneco, na Mata. Tenho-o como pessoa conscienciosa, e por isso nada me preparou para a absoluta mentira com que se permitiu enganar os leitores. V.ª Ex.cia gosta de dizer que a história não é ficção e que a ficção não é história. Até diz que o ficcionista tem inteira liberdade para mentir. Sendo assim, o que foi V.ª Ex.cia fazer a Tamengos com o Anastácio? Ver o que realmente se passou na queima do judas de 1941 ou inventar coisas sobre o assunto? É V.ª Ex.cia que gosta de factos e de documentos, não é? Pois, então, leia.

O seu tio Lúcio nasceu em 25 de Janeiro de 1934. Teve o acidente na queima do judas com a idade de nove anos. Portanto, a ocorrência é de 1943. Estava ele a segurar uma ripa, enquanto o pai a pregava para montar uma coelheira, quando este lhe disse para irem ver o judas. A coelheira ficava à entrada da adega, sob um telheiro onde, na meninice de V.ª Ex.cia, ressequiu um enorme balseiro vínico. No adro, já delimitado pelo muro e protegido pelo portão de ferro, encontraram pouco mais de uma dúzia de pessoas, que se deixavam ficar a uma distância considerável por temerem os efeitos dos rebentamentos. Ao contrário do que V.ª Ex.cia contou, o judas estava no meio do adro e não tinha apenas seis bombas. No seu bojo alojava-se uma grande quantidade de bombas pequenas, usadas nos foguetes, e que V.ª Ex.cia, na infância, apanhava com os amigos para rebentar, em pequenas doses de pólvora, raspando um seixo debaixo do calcanhar. Quando uma das bombas maiores explodia, as pequenas saltavam do boneco, subiam pelos ares e estouravam. Pois foi uma dessas bombas, por assim dizer secundárias, que fugiu da rota, se atirou na direcção do seu tio e lhe explodiu no dedo mínimo do pé direito. Em 1943, a maioria das pessoas andava descalça, e esse era o caso do Lúcio. O ferimento não foi uma brincadeira. O tio de V.ª Ex.cia andou três meses de muletas.

Embora esta carta já vá longa, devo ainda esclarecê-lo de que o fogueteiro não veio da Lapa. Nesse tempo, o judas era preparado pelo Maximiano, de Tamengos, que V.ª Ex.cia conheceu velho de oitenta anos. Aliás, já aqui escreveu sobre ele, lembrando-o como um homem de estatura baixa, que usava uma desproporcionada bicicleta de rodas 29. Acrescento que era também um homem de génio intimorato, que se apresentou com uma espingarda para apanhar os ladrões que lhe andavam a levar fruta. Os ladrões eram o seu tio Lúcio e os comparsas que, ao ouvirem um tiro, saltaram das árvores com uma pressa digna de admiração e fugiram por cima de silvas como se elas fossem seda. Palavras do seu tio Lúcio! Até lhe vou contar mais. Ao fugirem pelo caminho do Focinho de Cão, onde se encontravam, deram com a bicicleta do Maximiano e levaram-na para o adro da igreja, onde a penduraram num poste, ou num muro, não sei com precisão. Os ladrõezitos da fruta ainda ouviram o Maximiano a dizer, enquanto fazia descer a bicicleta: – Se eu sei quem foi! Ai se eu os apanho!

Descreva isto ao seu tio e verá se ele não confirma tudo e acrescenta os episódios anedóticos do Joaquim dos Santos. Não sabe quem é? Não se acanhe. Era aquele homem que, ao passar de bicicleta por V.ª Ex.cia, quando V.ª Ex.cia não tinha mais de dez anos, lhe dizia, com modos sisudos, esta ladainha de misterioso sentido cómico: pu nini, pu nunu, merda cagalhão vou p’ó peadeiro! V.ª Ex.cia era o nunu, nini era o seu melhor amigo, o peadeiro era o apeadeiro de Aguim, o resto não sei e V.ª Ex.cia também não. Pois o Joaquim dos Santos, ratoneiro, desceu de madrugada a rua principal de Tamengos com um cântaro de almude e um regador para ir a uma adega surripiar vinho. Outras vezes, era azeite. Apanhado, não lhe faltou resposta, que vou enunciar para exemplo de todos os mentirosos: – Mas quê?! Não ouviram? Há um incêndio na casa do Manel Tostão.

V.ª Ex.cia tem por força de refrear a imaginação, se não quiser passar por mentiroso e descuidado. Não sou apenas eu que o digo. É o Anastácio, que ainda agora o obrigou a corrigir a presença de soldados belgas no Palace Hotel da Curia. É o próprio Informático Ferroviário, que passa os ócios a rever-lhe os textos e a enumerar as gralhas, erros e desconcordâncias. São, enfim, os seus poucos leitores, que calam os reparos para não lhe ofenderem os brios.

Nada mais tenho a dizer.

De V.ª Ex.cia Cr.do At.o e Obrig.do,

Vasconcelos, velho homem da Mata

Nuno Rosmaninho