A minha feminista

por Rufino Fino Filho | 2014.02.10 - 18:25

São 6:00h… O despertador cantou de galo e esteve “vai, não vai” a caminho da parede, mas faltaram-me as forças…O cansaço navegava-me no corpo amortecendo os movimentos e alterando a minha relação com a gravidade. As pálpebras pesavam-me o dobro e dei uma volta á almofada. Acordei a cara-metade com uma notícia desagradável:

-Levanta-te! Tens de ir trabalhar.

Devia estar à espera, acordada naquela doce morrinha matinal que paira entre o sono e o despertar definitivamente. Resmungou:

– Não queria ter que trabalhar hoje… Hoje, não…Nem nunca…

E foi ladainhando o seu desespero acompanhado por uns quantos esticar de braços:

– O que não daria para ficar em casa, a cozinhar aqueles pratos que te levam o palato ao quinto céu e a ouvir a música, que nunca tenho tempo para escutar, cantarolando o “my way” do Frank e outras lamechices parecidas… Se tivéssemos filhos, gozaria a manhã brincando com eles e ensinando-lhes os jogos da minha juventude; se tivéssemos um cachorro, gato ou canguru, tanto faz, passearia pelas redondezas de trelas na mão… Aquário? Ficaria olhando os peixinhos nadarem naquele bamboleio sempre igual… Faria tudo! Tudo, menos sair da cama. Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a infeliz matriz das feministas que teve a estúpida ideia de reivindicar direitos de mulher. Que estupidez e falta de senso! Só nos prejudicou!…

Sacudiu os lençóis que a cobriam, atirou com as pernas para fora da cama e continuou:

– Era tudo tão bom no tempo das nossas avós… Passavam o dia a bordar, trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente segredos de molhos e temperos, de remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas dos maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, colhendo legumes das hortas, educando as crianças, frequentando saraus. Enfim, a vida era um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária.
Vai daí, vem uma fulaninha qualquer que não gostava de sutiã nem tão pouco de espartilho, e contamina várias outras rebeldes inconsequentes com ideias mirabolantes sobre “vamos conquistar o nosso espaço”!!! Que espaço, minha filha???

Fui acordando pelo meio da reza com aquele vago sentido de que era comigo aquela conversa. Não percebia porquê mas o rosário de queixas tinha um destinatário.

– As mulheres já tinham a casa inteira, o bairro todo, o mundo aos seus pés. Detinham o domínio completo sobre os homens e eles dependiam de nós para comer, vestir, para tudo!!! Que raio de direitos mais poderiam elas querer? Agora, os homens, andam por aí todos confusos porque não sabem que papéis desempenhar na sociedade e fugindo de nós como o diabo foge da cruz… Essa brincadeira do feminismo acabou enchendo-nos de deveres e lançando as mulheres no calabouço da solteirice aguda, isso sim. Antigamente, os casamentos duravam para sempre. Porquê, digam-me??? Digam-me porque raio, as mulheres, que tinham tudo do bom e do melhor, que só precisavam de ser frágeis, foram se meter a competir com os machos? Olha o tamanho do bíceps deles, e olha o tamanho do nosso. Estava na cara que isso não podia dar certo!!!

Mau, mau…aquilo era mesmo comigo. Virei-me para o outro lado, lancei um ronco de tamanho médio, como se estivesse no meu mais perfeito sono, aninhei-me, e esperei que a sinfonia acabasse ali. Enganei-me.

– Uma mulher a trabalhar é um moiro de trabalho. Por tudo! Já não aguento ser obrigada ao ritual diário de escovar, maquiar, espalhar cremes hidratantes, escolher que roupa vestir e que sapatos combinar, que acessórios usar… estou cansada de ter que disfarçar o mau humor, de sair sempre a correr, de ficar engarrafada, de correr risco de ser assaltada, de morrer atropelada, de passar o dia direita á frente do computador e com o telefone no ouvido resolvendo problemas que nem sequer são meus!!! E como se não bastasse, ser fiscalizada e com a obrigação de estar sempre em forma, sem estrias, depilada, sorridente, cheirosa, com as unhas feitas, sem falar no currículo impecável, recheado de mestrados, doutorados, e especializações, porra. Virámos super mulheres e continuamos a ganhar menos do que eles… Não era muito melhor ter ficado fazendo tricô na cadeira de balanço? CHEGAAAAAAA!!!… Eu quero alguém que pague as minhas contas, abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu me sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela… E há mais: quero alguém que, quando chegue do trabalho, se sente junto ao meu lado e diga “meu amor, eu vou-te buscar um cafezinho”. Descobri que não nasci para servir.

Era de mais! Um homem não pode ouvir tudo! Os direitos da mulher terminam onde começam os direitos do ocupante da outra metade da cama. Não fui eu quem inventou aquela história do “para a vida e para a morte“, “no bem e no mal“, “na doença e na saúde“, etc., etc., e, como tal, não tenho que pagar um erro da juventude pela vida fora. Desenrolei-me do lençol, e arrastei a voz:

– Amorzinho, são 6:30. Cá em casa, alguém tem que trabalhar.
– Ai, meu Deus, já são 6:30! Tenho que me arranjar!…

Metida na casa de banho, ainda a ouço gritar antes de voltar a adormecer.

– Deixo-te o almoço feito no frigorífico e é só aquecer a sopa. Antes de sair ainda vou buscar o pão e fica o café feito na cafeteira. Vai vendo o que queres comer ao jantar! Passo na lavandaria e trago-te o fato que vais levar, no domingo ao casamento do filho do compadre e depois passo-te uma gravata e…

Confesso que o resto já não ouvi porque adormeci a pensar:

– Que bom que é ter uma mulher feminista!