A IMPORTÂNCIA DE UM SOBRENOME

por José Carreira | 2014.10.29 - 00:59

 

Estou a organizar um magusto solidário que se realizará no dia 22 de novembro. Contactei um músico amigo para saber se será possível contar com o seu contributo para abrilhantar a iniciativa. Ao ligar, porque não reconheceu o número, o que reteve foi o apelido: Carreira (“Fala o Carreira”) ! Carreira, logo Tony, portanto…Tony Carreira!

Acredito que, por breves instantes, o pensamento tenha sido preenchido com o pensamento: “o Tony Carreira está a ligar-me”. Entre um possível contrato musical e um pedido de colaboração para uma iniciativa de carácter social, um sobrenome fez toda a diferença, tendo o mesmo culminado num resultado diferente…

Curiosidades à parte, serve este introito para afirmar que um sobrenome, não o meu (claro!), ainda tem muita importância. O cidadão mais atento constata, facilmente, que o sobrenome Y ou K, na hora da escolha, tem mais “peso” do que um bom currículo e provas dadas. A meritocracia continua a ser uma miragem, na maior parte dos casos.

Ter um sobrenome conhecido na praça permite “saltos à vara” e “ultrapassagens pela direita”. As portas abrem-se-lhes e os tapetes vermelhos aguardam sentir o rasto dos sapatos italianos… Pouco ou nada se lhes exige, não sendo submetidos ao habitual crivo da seleção. Inversamente, um sobrenome vulgar, associado a uma residência num bairro social ou suburbano, coloca o candidato no fim da lista e num lugar do pódio, quando há necessidade de despedir.

Neste aspeto os pontos de contacto com os nossos vizinhos espanhóis são mais do que os desejáveis. A publicação mensal Tinta Libre (Outubro, 2014, N.º18) tem como título principal: “Alcaldes y caciques”. A este propósito, Ramon Lobo chama a atenção para a ocupação “caciquil y hereditaria del poder”: “su abuelo y su padre también fueron presidentes de la diputación.”

Na Península Ibérica, a tradição tem o seu valor, ainda é o que era!

Não tenho filhos, mas, arrisco-me a dar um conselho a quem os tem / tiver. Não se esqueça de escolher pelo menos três sobrenomes, que resultem de uma análise just in time, que possam dar garantias de estarem em voga e bem cotados na “praça”. Absurdo? Talvez seja, mas não vislumbro, para já, melhor alternativa à extinção do “elevador social” que engrandece os discursos, mas não sai do rés-do-chão!