A FÁBULA DO FEIXE DE VARAS

por Alberto Correia | 2016.10.31 - 07:40

 

(A propósito da Festa da Castanha em Sernancelhe)

Não é das mais conhecidas esta fábula de “O velho pai e do feixe de varas” que Esopo, o pai deste género literário de intenção moralizante nos deixou, com tantas outras que depois o tempo acrescentou.

Esopo, que viveu na Grécia na transição do século VII para o VI antes de Cristo parte da cultura popular do seu tempo e faz interlocutores da sua lição os animais, os homens, tolos ou virtuosos como eles, as coisas inanimadas e até os deuses do seu Panteão, mas deixa aos homens o seu livre arbítrio, não impõe e mesmo assim os homens do seu tempo não lhe perdoaram os apelos à virtude, não os homens do povo, mas as elites do seu tempo, menos virtuosas que a gente do povo, tintas de um quadro que não se apagaram, até hoje. E Esopo foi condenado à morte, injustamente, diz Heródoto, o probo pai da História. Era já tarde de mais.

Conta assim, a fábula: Um velho pai de sete filhos sentindo que seus últimos dias eram chegados, chamou um dia os filhos para junto de si e confessou-lhes o seu desgosto por vê-los desunidos, situação que até ali não conseguira remediar.

Tinha agora junto de si um feixe de varas atado por um sólido vincilho e propôs aos filhos que quebrassem o feixe. E os rapazes, um a um, a começar pelo mais velho, bem se esforçaram por mostrar sua valentia quebrando o feixe. Mas o feixe não quebrava.

E o velho pai, apesar de alquebrado, retirou as varas, uma a uma e com facilidade as foi quebrando.

No fim disse aos filhos: Se permanecerdes unidos ninguém será capaz de vos separar; se permanecerdes separados, qualquer vos quebrará!…

E o velho pai deixou em aberto a lição.

Lembrei-me desta fábula na sexta-feira passada quando, no grande átrio do Exposalão, em Sernancelhe, Carlos Silva Santiago, Presidente da Câmara de Sernancelhe abria solenemente a FESTA DA CASTANHA.

Estavam consigo muitos dos autarcas que democraticamente presidem aos destinos dos Municípios vizinhos e era a eles, cada um na defesa do seu povo, do seu território, das suas riquezas endógenas, a gente, a castanha, a maçã, o míscaro ou o vinho, as tradições, tanto faz, mas era também aos produtores destes bens de nosso uso, àqueles que os comercializam, que a lição poderia alargar-se, e trouxe a exemplaridade da velha fábula que ele disse ter recolhido, na versão contada, de seu antecessor, José Mário Cardoso que inventara lição semelhante a partir do tradicional feixe de vides que os homens da poda das videiras atavam firmemente ao fim da sua faina.

A lição ficava aberta, como as lições de Esopo. A moral da história cada um a saberia depois recolher.

Nos livros antigos como aqueles por onde eu aprendi a ler vinha a moral: A união faz a força. E a minha professora, na Sarzeda, que fica ali ao pé, sabia explicar-nos muito bem esta lição. Falava de nós, os companheiros. Amigos. Que nunca deviam deixar de estar unidos!…

Quarenta anos simbólicos passaram e como eu gosto de estender-lhes a mão quando os encontro…