NO CREO EN BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY

por José Carreira | 2016.11.02 - 10:29

 

 

Exibicionistas há muitos. Se pensarmos em exibição muscular, é natural que nos surja a imagem dos atletas profissionais de alto rendimento ou dos frequentadores assíduos dos ginásios.

Nos últimos tempos, beneficiando do instantaneismo das redes sociais, um músculo tem vindo a ser exibido amiúde. Que musculo é esse? A língua.

Lembro-me perfeitamente que colocar a língua de fora era um sinal de má educação, uma atitude feia e reprovável socialmente.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

Será que colocar a língua de fora já não é um sinal de má educação? Parece que não…

Talvez eu seja excessivamente conservador, ainda assim continuo a considerar a exibição do referido músculo algo ridícula e uma atitude reveladora de falta de educação.

Uma visita ao Facebook permite-nos observar constantemente que há alguém, sem que se perceba bem por que razão ou com que objetivo, com a dita de fora, tornando, desde logo, inestéticos rostos, bonitos. Para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita, com mais ou menos saliva, com ou sem piercirng, a solo ou em grupo, ela sai do seu espaço natural, do seu recato e é apresentada à comunidade cibernauta.

Por estes dias, o proprietário de uma pastelaria que frequento desabafou: “Acredita que um senhor a quem chamei a atenção porque não se dignou a recolher os dejetos do seu amável canino, no local onde brincam as crianças, cada vez que passa por aqui, coloca a língua de fora e faz-me caretas?”. Sinal dos tempos? Brincadeira? Falta de respeito? Enfim, deixo à consideração do leitor, mas lanço uma questão: o que dirá um pai ou um professor a uma criança ou jovem que exiba a sua língua inadvertidamente?  

Ontem, uma amiga estava furiosa porque atiraram com ovos contra a parede da sua casa e viu-se e desejou-se para conseguir limpar a gemada. Um amigo referiu que a filha já estava preparada, vestida de preto e munida de ovos. Pelas ruas viam-se magotes de adolescentes…

As comemorações do Halloween estão ao rubro e conquistam adeptos.

Recordei o momento em que, há dois anos, cheguei ao carro e estava pejado de ovos e farinha, uma nojeira indescritível, um bom espelho dos energúmenos que, sob a capa e à boleia da vassoura das bruxas, maldito dia das bruxas, praticam atos de vandalismo que geram prejuízos em bens de particulares e no património público, destruindo múltiplos equipamentos urbanos.

Uma amiga desabafou na sua página do Facebook:

Este foi o estado em que encontrei o meu carro[1]. Aos imbecis que fizeram isto só quero dizer que a educação não é inata, adquire-se. Não tenho nada contra o halloween em que as crianças querem ganhar algumas guloseimas. Mas aos meninos que andaram por aí à solta ontem à noite espero que cresçam e que aprendam as respeitar os outros.”

Festejar não pode rimar com estragar.

Além dos danos causados, em tempos tão difíceis como os que vivemos em que muitas famílias passam privações alimentares, é de uma total ausência de valores o ato de destruir ovos e farinha.

Meus caros, já imaginaram se, num desses momentos, chega alguém que vos obriga a exibir a língua e a exercita-la na recolha da farinha e dos ovos acabados de lançar?

«Já imaginaram se o feitiço se vira contra o feiticeiro?»

«No creo en brujas, pero que las hay, las hay»

[1] Observe, na foto, o estado em que ficou o carro.