Um presidente-fogueteiro?

por Paulo Neto | 2014.01.01 - 00:15

O fogo-de-artifício era já usado na China há 2 mil anos, segundo palavras de um imperador chinês escritas em 1719.

Era designado de artifício para explicar que não era fogo natural.

Um fogo-de-artifício é um procedimento pirotécnico utilizando explosivos para produzir SOM, LUZ e FUMO.

Refere a Infopédia: “Em pirotecnia, um foguete consiste num dispositivo formado por um cartucho cheio de pólvora ou outros explosivos, unido a uma vara estabilizadora. É lançado ao ar, impulsionado pelo escape de pólvora em combustão. No final da subida explode completamente, produzindo um ou vários estampidos, podendo ainda apresentar vários efeitos luminosos (denomina-se fogo de artifício a um grupo de peças pirotécnicas que se queimam sobretudo em noites de festa, originando criativos jogos de luzes).”

Pirotecnia, (piro – fogo em gr.) ou técnica do fogo, seria o domínio de uma arte envolvendo o fogo que queima e consome, símbolo de purificação ou de regenerescência. A chama, ao subir em direcção ao céu, simbolizava a tentativa de espiritualização. Mas isto era há milénios…

Menos eruditamente, o fogueteiro é uma figura de todos conhecida. Dantes, nas vilas e aldeias, quando chegava o peixeiro, o circo, o animatógrafo, era comum deitarem um ou dois foguetes. Ainda não havia sms’s… Era o alerta, o aviso dado. A outra forma de convocar o poviléu era através do sino. Mas estava reservado aos actos solenes: toar à missa, dobrar a finados, convocar à festa ou ajuntar o povo em momentos de emergência, desgraça e catástrofe, como o fogo numa casa, tulha, mata ou trigal.

Aquilino Ribeiro, in «Malhadinhas» escreve com jucunda ironia: Os parlamentares, quando lêem os discursos, parecem fogueteiros a deitar o seu fogo mau e mortiço, e os fogueteiros deitam os foguetes como se tratasse de discursos lidos nas Câmaras, de forma a não levantarem eco.

«Deitar foguetes antes da festa» é um aforismo com sentido e muito cabimento em todo o lado. Cada vez mais em todo o lado…

«Meter-se a fogueteiro», diz também o povo, é sair mal de empresa aquele que nela se meteu sem dominar o ofício.

«Levar um foguete» é sinónimo de ralhete ou descompostura.

«Correr a foguetes» é andar muito depressa. Até havia um comboio chamado «Foguete» e o «foguetão», com este aumentativo só pode ser mesmo um foguete muito espacial…

Bom… Estamos em Viseu. A passagem do ano acontece com frio. Molhada. É meia-noite. Comem-se as passas, exprimem-se os desejos, brinda-se com champagne, espumante, vinto tinto, uma «loira». Só não vale erguer o copo com água. Que essa é para matar a sede e não é bebida de homem peludo…

Em 10 minutos a CMV reconforta o povo com 35 mil euros de foguetório e 10 mil euros de multimédia. Som, luz e fumo. Para queimar e desvanecer no ar.

Viseu gosta de foguetes, pensa Almeida Henriques. Almeida Henriques dá a Viseu o que pensa que Viseu gosta. Soberano, não pergunta. Impõe o foguetório, como tão primária forma de gastar os dinheiros públicos nos tempos difíceis que correm. Faz dos viseenses uns “deslumbrados” e para animar efemeramente umas centenas de almas atridas, atroa o ar com a sua noção de alegria ruidosa.

Estamos no 1º de Janeiro. Que seja um ano de boa mudança, este 2014. E se for, até ao edil perdoaremos o esbanjamento e o estralejo.

Bom 2014 para todos os leitores e colaboradores da Rua Direita, a mais airosa de Viseu!