Sacudir dos pés o pó

por Paulo Neto | 2014.02.01 - 09:53

É aconchegante pensar que a ambição, coragem e o aventureirismo português, salpicado do conveniente espírito evangélico, contribuíram determinantemente, na era de 500, para a incipiência irreversível do conceito de internacionalização, não entre países geograficamente afins, mas através de novos continentes.

O argonautismo de Zarco, Vaz Teixeira, Silves, Eanes, Fernandes, Dias, Tristão, Teive, Santarém, Escobar, Sequeira, Pó, Corte-Real, Gama, Cabral… mudou radicalmente a concepção, a economia e a geografia do globo.

Do Brasil a Diu, de Angola a Timor, os lusitanos ligaram a Europa à América, África, Ásia e Oceania. O português apartou e amou os caminhos do mar e os da terra. A grandeza parcial do feito imortalizou-a Camões. Sucederam-se séculos de domínio imperial, de grandeza e de vileza.

Portugal sobrou-se a si próprio. Até se dar ao corpo da Europa, aquele no qual Pessoa, na sua concepção do Vº Império, nos colocou à cabeça.

Saramago, em “Jangada de Pedra” (Caminho, 1986) alerta-nos, numa imensa alegoria, para uma Ibéria que se queria autónoma do jugo europeu, na verticalidade identitária de um território e história inalienáveis. Mas era comunista.

Ouvidos moucos, abertos os olhos ávidos ao fausto anunciado, entrámos no clube da ilusória riqueza, à lauta mesa nos saciámos e, agora, ainda saudosos do repasto, rapamos as migalhas e sofremos o fel fervilhante num hético corpo indigente.

A História repete-se. Ousámos para voltar e sacudir o onírico pó da miragem.

Mas culpar a Europa, essa velha fêmea súcuba, é como culpar o Brasil ou as Índias. Tivemos outrora o mundo nas mãos e deixámo-lo escoar, como areia fina de Sagres, por entre os dedos mal cerrados. Tivemos a riqueza que a Europa concedeu. Brincámos aos ricos de faz-de-contas, num deslumbramento de um quarteirão de anos. Perderam-se riqueza e dedos…

Se calhar somos apenas globetrotters, marco paulos levantinos, jesuítas de pé ligeiro e sarça ardente, brasileiros camilianos de torna viagem. Não somos acolhedores da prosperidade. Expulsámos os judeus com o terror da Inquisição. A pelintrice, sem a arrogância de Castela, integra um ADN milenar, oriunda da plácida Borgonha.

Agora, sonhamos com o lugar, mesmo que esse VIº Império seja já e só um quintal, mas não abdicamos da ideia de Nação como contrato de homens livres. Cantámos Cantigas de Amigo e de Amor e escrevemos gestas de Távola Redonda. Sobrou-nos o Fado, o Escárnio e o  Mal-Dizer.