O Presépio da Lapa

por Paulo Neto | 2014.12.24 - 19:48

 

 

 

Hoje, por mais motivos que me fossem dados, não escreveria sobre a “estrumeira” política em que este belo e mal-fadado país se tornou…

 

É noite da Consoada. Supostamente uma noite com muito calor humano, concórdia, alegria, harmonia.

A ceia do bacalhau com as couves espera-nos. Talvez umas rabanadas e uns “vilharacos” se lhe sigam.

 

Aquilino Ribeiro nasceu no Carregal, Sernancelhe. Depois dos estudos primários, já a residir com seus pais em Soutosa, foi continuar seus estudos para o Colégio da Lapa.

Do primeiro momento ficou-nos “Cinco Réis de Gente“.Do segundo, “Uma Luz ao Longe“. Duas admiráveis obras de releitura obrigatória.

A 10 de Dezembro de 1945, Aquilino publica uma obra amorável que dedica a sua Mãe, Mariana do Rosário Gomes, com o seguinte frontispício: “À memória de minha Mãe, humilde boa e religiosa sem ser pelo interesse de ganhar o Céu.” Essa obra intitula-se “O Livro do Menino Deus” e compõe-se de duas partes: “A Legenda Bíblica” e “Irradiação“, consagrando-as, respectivamente à história do Menino, “do Berço ao Calvário” e aos usos, costumes e tradições de Natal que viveu na sua infância e juventude.

Curiosamente, o ex-libris adoptado “Alcança quem não cansa“, é aqui substituído por outro: “Amour et Concorde du Ciel Vient“…

Deixo-vos um maravilhoso excerto que nos fala do Presépio da Lapa que ele tanto admirava, visto pelo olhar de uma ganapinho de 10 anos e que ainda lá está para poder ser por todos apreciado…

 

 

“O presépio da Lapa era uma obra-prima sepulta na escuridão da serra, até encontrar a guarda vigilante do bom capelão.

Cantando vilancicos desenxabidos ou gazeando automáticas rezas, quem os rapazes tinham a marulhar no espírito, gravado no firmamento estelar dos olhos, eram as formas e a sugestão de mundo que irradiava do presépio e dos milagres. A bucólica do Natal com a sua lírica feita ao tôrno por levitas pouco fadados das Musas ou mestres de capela ignavos, artificiosa no fundo, pouco lhes dizia à sensibilidade. Em face da tragédia lúgubre da Semana da Páscoa, em que se pode inscrever o destino do homem, e do mês látrio de Maria, na altura do ano em que chispam por todos os poros os fogos do renovamento, o Natal cristão não passava para eles dum mistério fútil, mal integrado nos mitos cósmicos afundidos na caligem dos séculos.

Lá fora caía neve, uma neve que lhes envidraçava aos olhos o mundo dos sentidos e, por aberração psicológica, o próprio mundo sonhado. As quatro quadrelas dos miradouros, destacadas aos quatro pontos, sossobravam no mare-magno de brancura. Toda a serra, rocha e pedregulhal, pedregulhal e rocha, não se chamasse ela serra da Lapa — de lápis, pedra — escondia a face negra e ascética. Dentre os quarenta a cinquenta internos da casa desmesurada, algum deles dobrado sobre si mesmo daria sete voltas à casa interior. Na nave em que os versos estereotipados caíam gélidos como lá fora os flocos, a árvore miraculosa do sonho crescia. Era de crer que enfariado com a contrafacção da natureza, com a monotonia do hora, horae, pouco lhe interessando que a soma dos ângulos internos dum triângulo fosse igual a dois rectos ou não, na consciência em crise com o meio incubasse o revoltado e em grau ascendente o romancista. Assim ou doutro modo, ninguém compreendia. Ah, quási meio século andado, como ele não daria as suas resmas de papel impresso, sa toute petite flamme pelo prazer da oca celestialidade, prazer sem nada mais, de se ver no côro alto da Lapa, diante do alígator mumificado, gorjeando:

 

Nossa Senhora é rosa

O Menino é craveiro.

Lindo cravo, linda rosa,

Lindo amor verdadeiro.”

 

Gostou? Leia Aquilino e encontrará muitos milhares de páginas refulgentes desta luz, desta memória, destes topos e tempos, aqueles presentes, estes passados, mas aqui revividos e revisitados numa loa inigualável à Língua Portuguesa, hoje, tal como Portugal, por tantos tão aviltada.

 

Tenha uma harmoniosa Consoada e auspicie que o Pão não lhe falta à mesa, como já em tantas mesas de muitos desafortunados lares, onde só, alvinitente, a limpa toalha sem vitualhas que a cubram, se ergue nua como triste e pávido sudário de Job…