O leitor ainda come pescada?

Quanto à pescada, aqui apresentada como exemplo do peixe que mais subiu, arredei-a liminarmente da minha mesa. Milhões de portugueses farão decerto o mesmo. E quando o consumo baixar para níveis baixíssimos, vamos todos fazer um grandioso “manguito” e dizer aos “cevados especuladores” que façam dela objecto de exposição em aquários de luxo e que a passem a comer ao pequeno-almoço, almoço, merenda, jantar e ceia, cozida, frita, grelhada, de fricassé, etc.

  • 14:57 | Segunda-feira, 05 de Setembro de 2022
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Se respondeu afirmativamente permita-me que lhe dê os parabéns, pois é, decerto, um privilegiado.

Segundo as estatísticas da passada semana, a pescada aumentou qualquer coisa como 76%. Provavelmente, cansada de nadar, vem de Lamborghini para a lota. E é verdade que nenhuma carteira ignora o sobe e desce interminável do custo dos combustíveis. Também ninguém, ignora que a invasão da Ucrânia pelas tropas russas vai a caminho do seu sétimo mês e que, um pouco por toda a parte mundo afora, todos estamos a pagar caro os desvarios imperialistas expansionistas do diabólico Putin. Mas senhores, a pescada subir 76%!!??

 


Segundo o Boletim Mensal da Agricultura e Pescas – Julho de 2022, do INE, citamos “o preço médio dos peixes marinhos (1,92 euros/kg) teve um acréscimo de 3,6%, que ficou em parte a dever-se ao preço superior atingido por espécies como os atuns, a cavala, o peixe-espada e a sardinha.”

Sou péssimo em matemática, mas aqui há uma enorme discordância percentual. Aquilo que sei é que quando os preços disparam em flecha fruto das políticas especulativas dos profissionais do sector, com realce para as grandes superfícies (que cada vez apresentam lucros mais “estratosféricos” ), o consumidor retrai-se e, apesar do pescado comercializado nas lotas atingir valores de muitos milhões de euros – as lotas de Aveiro e da Figueira da Foz facturam na ordem dos dois dígitos em milhões – com o valor da inflação, consequente “encolhimento” dos salários e estagnação dos aumentos, o português médio vai ter que fazer grandes sacrifícios para ir quinzenalmente ao supermercado, à frutaria, à peixaria e ao talho.

E ainda assim tem que implementar urgentemente estratégias de defesa no consumo de bens alimentares. Comer menos, comer produtos mais baratos. E talvez pôr de lado a maioria dos peixes, a maioria das carnes sem se tornar vegetariano, pois também não iria conseguir com o preço a que estão as saladas, os legumes, as frutas.

A DECO alerta “Entre 23 de fevereiro e 10 de agosto, o preço do peixe registou um incremento de 22,01% (mais 13,28 euros). Só a pescada fresca já aumentou 76% neste período. Fazendo as contas a apenas um quilo (kg) de salmão, de pescada, de carapau, de peixe-espada-preto, de robalo, de dourada, de perca e de bacalhau, o consumidor pode agora ter de gastar, em média, 73,59 euros. Antes do início da guerra pagaria 60,31 euros”.

Quanto à pescada, aqui apresentada como exemplo do peixe que mais subiu, arredei-a liminarmente da minha mesa. Milhões de portugueses farão decerto o mesmo. E quando o consumo baixar para níveis baixíssimos, vamos todos fazer um grandioso “manguito” e dizer aos “cevados especuladores” que façam dela objecto de exposição em aquários de luxo e que a passem a comer ao pequeno-almoço, almoço, merenda, jantar e ceia, cozida, frita, grelhada, de fricassé, à poveira, etc.

(Fotos DR)

 

 

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