É preciso ter topete!

por Paulo Neto | 2015.07.09 - 23:43

 

Há fins de dia aos quais chegamos com menos ânimo e menor capacidade em deglutir a patranhada que nos querem fazer engolir, como se não passássemos de meros néscios tartamudos, incapazes de distinguir o fel do mel.

O primeiro-ministro de Portugal parece um mentiroso compulsivo que todos os dias apregoa realidades virtuais concebidas pela sua corte de magos Merlin, ora se desdizendo em arco de 180º, ora afirmando o que ontem negara, para amanhã voltar a negar a afirmação de hoje. Um acrobata!

Homem desacreditado a invocar o direito à privacidade familiar, para no dia seguinte exibir a mulher com os óbvios vestígios da dura terapia a que a doença a obriga, numa gratuita imagem do apelo à compaixão de um duvidoso e inclassificável gosto.

Actos destes, como mero exemplo, definem o praticante.

Porém, para além deles, a revolução semântica de conveniência e oportunismo dos seus discursos, transmite exemplarmente a ideia do grau de perdição a que chegou.

Hoje, num congresso, com a lata vezeira, arengava:

“Portugal tem autoridade dentro da zona euro porque concluiu um programa de resgate quase impossível, que tinha metas orçamentais incumpríveis, tendo estado à beira de uma falência de crédito. Na verdade, estes objectivos eram incumpríveis. Nenhum destes objectivos era alcançável pelos meios naturais que estavam previstos no programa de ajustamento”.

Como escreveu uma amiga: “Tanto in!”

(…)

Mas que autoridade tem, afinal, Portugal?

Qual programa de resgate concluiu, se ainda recebe directrizes da troika?

Se era quase impossível, valeu-nos o Super-Homem, a Nossa Senhora dos Aflitos ou a magia e o ilusionismo do “artista”?

Se as metas eram incumpríveis, qual prodígio sucedeu ou fenómeno do Entroncamento aconteceu?

Se os objectivos não eram atingíveis por meios naturais, foram-no por meios artificiais? Com a ajuda de marcianos? Ou foi, afinal, um milagre de Fátima?

De facto, este primeiro-ministro vende bem a banha da cobra. Legitimamente porfia em resistir ao naufrágio, servindo-lhe qualquer bóia, placa de esferovite ou rolha de cortiça…

Ainda por cima, nesta retórica desavergonhada, insiste em fazer de todos os portugueses um bando atávico de parvos semelhante ao bando de idiotas que nos saqueou, enganou e traiu…

É preciso ter topete!