Cavaco e Mandela

por Paulo Neto | 2013.12.08 - 10:08

 

Aquilo que se designou de « língua de madeira » não é senão uma figura de retórica que visa contornar a realidade objectiva através das palavras.
Em contexto político, a « língua de madeira », a maior parte das vezes, tenta esconder uma incompetência ou uma relutância na abordagem clara de uma temática, recorrendo a novos códigos e a um fausto palavroso mais dirigido aos sentimentos do que aos factos. As palavras passam a adornar aquilo que qualificam, tornando-se instrumentos de arteirice, mais do que designadoras do real.
Barthes expressava-o lapidarmente na fórmula : « dar caução nobre a realidades cínicas », mas escreveu ainda em « O Grau Zero da Escrita » (Ed.70):
“A escrita política apossa-se de um léxico particular onde há uma própria codificação das metáforas
(…)
A escrita, sendo a forma espectacularmente comprometida da fala, contém simultaneamente, graças a uma ambiguidade preciosa, o ser e o parecer do poder; o que ele é e o que queria que o julgassem
(…)
A escrita funciona como uma boa consciência e tem a missão de fazer coincidir fraudulentamente a origem do facto e a sua transformação mais longínqua, dando à justificação do acto a caução da sua realidade.”
Mas é hoje… na linguagem de todos os dias que a “língua de madeira” mais se espevita. Nomeadamente na boca dos políticos, na qual nada é o que parece e nada parece o que é.
Também o imediatismo de hoje, ao privilegiar o instante em detrimento da memória, usa fórmulas curtas e enfáticas, descontínuas e ininterruptas e abusa da imagem do enunciador, porque vivemos numa sociedade que vê mais do que lê ou ouve…
Isto tudo ocorreu-me a propósito de Aníbal Cavaco Silva ter votado, na década de 80 contra a libertação de Mandela: “só quis evitar um banho de sangue e salvar os portugueses residentes na África do Sul”.
Querem maior nobreza? Tê-la-ão na presença de Cavaco no funeral de Mandela. O resto é conversa… ou “língua de madeira”?