As crianças, o Natal, as autarquias e umas linhas de “Terras do Demo”

por Paulo Neto | 2014.12.19 - 19:38

 

Natal é Natividade, como o foi minha avó paterna, cuja Mãe se perdera para ela nascer. E assim ficou para o lembrar, Maria da Natividade…

As crianças têm especial apreço pelo Natal. Há festa, calor nas lareiras, fartura nas mesas, a família em redor e o Pai Natal, quel vem deixar no sapatinho sua lembrança tão ansiada.

Como lembro a noite mal dormida de 24 para 25 e a correria alvorotada da madrugada para o Presépio…

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Uma em cada três crianças portuguesas não terá nada no seu sapatinho…

Felizmente que há autarquias a fazer de Pai Natal e a distribuir o calor de um afecto a tantas dele carentes.

Das que conheço realço Mangualde, Moimenta da Beira, Sernancelhe, Tondela… com autarcas singularmente atentos e sensibilizados para quantos tão pouco ou nada têm.

Outras haverá. Instituições, públicas e privadas… Não sei de sua obra…

No mundo convulsionado de hoje, o Kyrie de muitas crianças é o silêncio da asfixia e da fome ou o rebentar das bombas e morteiros nos céus da maldade humana.

Andou a homem séculos a civilizar-se para atingir todos os paroxismos da crueldade e desumanidade…

 

Aquilino Ribeiro, o nosso Escritor, no seu agnosticismo crítico, amava e recordava o Natal, assim como nunca se esqueceu de sua Madrinha, a Nossa Senhora da Lapa…

Deixo-vos um excerto genial de “Terras do Demo”, sobre o presépio na aldeia… Como ele escreve em “O Livro do Menino Deus”:

“As Terras do Demo esboçam o breve e tôsco painel do dia amorável:

“Ia nascer o Menino Deus. Já a beata da Clarinha mai’lo João Lájeas armavam a cabana, côlmo de palha, chão de musgo e uma manjedoira para a burra e para a novilha, que era mocha, salvo seja. Em guisa de paredes punham velhos chamalotes, e em tôrno do berço zagais com anhos às cavaleiras, magos de bornal farto e a rude malta dos caminhos. A Clara pernóstica todos os anos mandava cortar à Glorinhas, que tinha muito boas mãos, uma camisa nova para o Menino; cóscora de goma, colarinho à marialva, e êle que era mesmo um torrão de açúcar ria, ria, nem que lhe estivessem a fazer cócegas no umbigo. E assim fagueiro, nas sombras esvaentes da missa do galo, à luz de velas pouco maiores que pirilampos, o dava a beijar o senhor padre, murmurando:

Venite adoremus.

Lá fora, lutando com as trevas, a fogueira enorme do adro deitava, nas colhidas do vento, labaredas que ensangüentavam os muros e vinham laivar, como água-tinta duma profecia aziaga, a carne rósea do Menino. Todos tocavam com os beiços gretados pela intempérie os membros envernizados da imagem e na bandeja depunham o óbulo: um tostão novo, um vintém reluzente, melápios, uma pera morim. E rompia a cantoria estrídula, que os anjos pela certa acompanhavam no Céu em seus arrabis e sanfonas de prata:

 

Pastorinhos do deserto,

Levantai-vos que é de dia;

Há muito que o sol é nado

No regaço de Maria.

 

Deixai cajado e manta,

Vinde todos a Belém

Adorar o Deus-Menino

Nos braços da Virgem-Mãe.

 

Leva arriba, pastorinhos

Leva arriba, maltesia,

Já lhe está a dar a mama

Sua mãe Virgem Maria.”

 

Bom, mas este era o Natal nas Terras do Demo. Abençoadas.

Abençoado, que hoje as Terras do Demo não são as da Serra da Nave e do planalto da Lapa,  cinturando Barrelas, Moimenta e Sernancelhe.

As Terras do Demo vão de Melgaço a Faro e de Mirando do Douro ao Guincho… as terras todas de todo um Portugal na miséria.

 

(fotos DR)