A proximidade e a coesão de Borges são uma treta? Ou estamos perante “…um outro partido, assaltado pela ganância e pelo despotismo”

por Paulo Neto | 2016.03.24 - 09:40

 

 

É o que parece pelas discordantes e corajosas vozes que aqui e além se fazem ouvir. E fazem-se ouvir em sede própria, como foi o caso do Congresso do PS realizado no passado sábado, em S. Pedro do Sul.

Quando se ouvem críticas desta desmesura como as que aqui pode ler; quando a elas se responde com uma absorta cara de pau e com o silêncio dos culpados, algo está muito mal neste PS que veio para a Federação de Viseu com entradas de leão e está em vias de sair como sendeiro.

O afastamento generaliza-se, o amiguismo estabelece-se, o oportunismo desponta e a coesão… bem, a coesão parece ser um mero jargão para fazer um slogan bonitinho. Ou então, e mais grave ainda, a coesão de Borges é apenas com os seus apaniguados, é com um saudosismo serôdio, é com um regresso ao passado, inconformado, disfarçado e assustadoramente semi-assumido…

Quem o diz? Militantes presentes no referido Congresso.

Basta citar algumas das frases ali proferidas em voz bem alta e de olhos nos olhos, para perceber que a estratégia de Borges & Companhia já não tem disfarce que lhe assista e, cada vez mais, se assemelha a um despudorado tomar de assalto do distrito de Viseu, com a anuência ensurdecedoramente silenciosa de muitos responsáveis que deviam ter  vergonha na cara, até e para honrar o seu brioso passado político…

Uma das vozes mais críticas e desassombradas foi a do presidente da concelhia do PS Tondela, Joaquim Santos, de quem deixamos algumas das palavras proferidas:

 

“ (…) quando os propósitos são subvertidos, resguardo-me no arrependimento,  mas não calo a minha indignação.”

A proximidade desfez-se em heresia e a coesão transformou-se em interesses, vícios e agressões a uma grande parte do nosso território e, em particular, ao meu concelho.

Em Tondela, não se semeiam inscrições nem se pagam quotas à revelia estatutária – somos todos pessoas livres, incómodos para os nossos adversários e desconfortáveis para muita gente do nosso partido – sabemos disso!”

“Alguém disse que os socialistas de Tondela não teriam os neurónios todos, mediante a passividade, o silêncio e a indiferença solidária de alguns dos nossos dirigentes! Imaginem se tivéssemos os neurónios todos, a juntar à nossa dignidade!

A verdade é que não fomos talhados para engrossar o séquito, nem temos vocação para escudeiros!”

 

“Posto isto, apresentam-nos, para discutir e votar, o documento  “Um Novo Tempo de Mais Coesão”.

Atentos ao 1.º capítulo: “Uma Maior Proximidade com os Cidadãos”.

Só podem estar a brincar connosco. Basta-nos a proximidade que tivemos até agora!

Recordemos o anterior processo eleitoral legislativo. Ficamos fartos de tanta proximidade, e até sufocados de abraços de hipocrisia, de mediocridade, de imoralidade!

Mas o 2.º capítulo do argumento, “Mais Coesão no Distrito de Viseu” assusta-nos com o pior dos augúrios. Criou-se uma nova ordem dentro do PS de Viseu. Essa nova ordem, e sem ofensa para algum autarca em particular, porque a todos respeito, poderia chamar-se “Conselho Ecuménico Presidencial”, à espera de homologação estatutária, uma espécie de sínodo dos deuses, que sigilosamente reúnem longe da vista da plebe, e arredando as estruturas concelhias de 1.ª e de 2.ª classes, para uma coisa parecida a um exército maltrapilho, que só é preciso em épocas de crise, para servir de escudo aos soberanos!”

“Não foi por falta dos consecutivos avisos, mas continuam a querer enganar-nos como se fôssemos uma catrefada de idiotas – não vamos permitir!”

E termina deste acutilante modo, Joaquim Santos:

“Caro presidente da federação,

Diante de nós, uma assembleia, onde nos sentamos com igual legitimidade, que não é um tribunal e que nem nos vai julgar! Fui eleito, por duas vezes, com 100% dos votos e em cujos atos eleitorais participaram 3 vezes mais militantes que nestas, para delegados da minha estrutura concelhia.

Chegou a hora de explicar, a todos os socialistas presentes, os contornos que levaram à nomeação do atual director do Centro de Emprego Dão-Lafões, com sede em Tondela.

Exportaram-nos um ilustre desconhecido, sem o perfil exigível e de estranho currículo. Tão estranho que não serviu para Viseu, onde o PS se ajoelhou diante da promiscuidade laranja! Tão estranho que estamos a ultimá-lo!

Na verdade, não se tratou de uma escolha feita por aquela “coisa” abstracta, chamada IEFP. Uma entidade sem rosto, que se pretendeu comparar ao programa televisivo “The Big Picture” – quando o concorrente não sabe a resposta, carrega num botão, giram os “cromos” até aparecer o nome do feliz contemplado.

Um favor, tão evidente como descarado, que nenhum de nós ousaria deixar passar em claro aos nossos adversários!

Enquanto isso, o laranjal viseense continua florido – tememos saber porquê!

Agora, e porque está na moda, só há uma alternativa: a reversão!

Que legitimidade tem o presidente da federação para distribuir uns assentos a seu bel prazer e fabricar outros no “comité dos famosos”, arredando das decisões tanto as estruturas locais, como os seus pares do órgão executivo a que preside?

(…)

Da mesma forma que rejeitamos silêncios, recusamos recados dos mensageiros. Queremos respostas da própria voz!

Este tempo pode ser novo, mas não é tempo de mais coesão, nem de menos coesão. É um outro tempo, de um outro partido, assaltado pela ganância e pelo despotismo. Este não é o nosso tempo.

Este não é o nosso partido!

Termino com devida vénia a Jean-Paul Sartre:

“Odeio as vítimas quando elas respeitam os seus carrascos”

E perante isto que responde o próximo e coeso António Leitão Borges? Só assobia para o ar? Até quando?