VISEU . RURALIDADES – UMA DISCRETA VIGILÂNCIA

por Alberto Correia | 2014.09.04 - 11:56

 

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de Arquivo de Foto Germano)

 

A madre natureza ensinou a esta mãe tão fecunda o sereno e paciente jeito de uma vigilância discreta sobre a ninhada que, numa roda pouco mais larga que a maternal sombra, aprende os gestos que ela aprendera já de sua mãe e que têm agora, como tiveram então, seu princípio com a insegura procura do pão.

Mais tarde, antes ainda que chegue o anoitecer, a vigilante mãe recolherá ao curral onde, generosa, se oferece a vianda temperada de duas mãos-cheias de farelo que a dona despejou na larga pia de pedra e é às vezes nessa hora, no geral mais tarde, quando ela se ajeita na cama de palha nova, que os filhos correm e se atropelam na busca gulosa do úbere túrgido da mãe, o que lhes calhou em sorte nesse primeiro dia em que a luz se lhes mostrou, e reservarão para si, ciosos da posse, enquanto o leite da mãe não secar.

Um dia virá em que um “porqueiro” atravessará a aldeia. Baterá à porta do lavrador e a porta do curral abrir-se-á então. E aquela mãe de filhos criados irá vê-los partir, sem lamentos talvez, mas ninguém sabe bem, nessa hora, se o “choro” dos filhos ainda a magoa.

Outro dia virá e desta vez ela irá a caminho da feira, com filhos ou não. Às vezes jornada de longas andanças, caminhos de terra e a dona chamando – vicávicá – duas malgas de milho colhidas do chão. E quando a feira à tarde se desfaz a dona que agora se sente ali só, esconde sem ninguém ver, uma lágrima que enxuga com o lenço guardado no bolso fundo do avental.