VISEU . RURALIDADES

por Alberto Correia | 2014.02.08 - 12:29

 

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de Arquivo de Foto Germano)

 

7 – A MALHA DO CENTEIO

 

Jamais alguém descreverá, como Aquilino Ribeiro o fez nessa epopaica narrativa que são as “Terras do Demo”, a malha do centeio, essa gesta poderosa que corria no pino do verão pela vastidão das eiras dispostas em roda nas abas dos povos da sua serra. Os centeais eram fartos nas bastas courelas, chiavam carros de bois nos caminhos e as pousadas de pão aguardavam nas eiras, com data marcada para a entrada de Agosto, o passo rompante dos malhadores.

Nas terras mais quentes do Dão e Lafões regadas por águas de rios com madre na serra, é de milho e vinho que se faz a riqueza da terra.

Que centeio, às vezes, também dava em crescer nos alqueives secos de encosta onde não medravam os frutos da horta. Coberto a ancinho em chãos pequeninos, manteado à enxada em leiva mais vasta entre os fins de Outubro e o alvor de Fevereiro era vê-lo já grado nos meados de Maio, de ouro tingido ao romper do verão, ceifeiras à porta de foice na mão.

Chamavam-se depois os homens à eira, aos pares, às vezes eram mais, frente a frente, em fileira, e ouvia-se ao longe o bater dos manguais. À meia manhã havia a piqueta que a dona trazia na cesta de corra coberta à maneira com toalha de linho. Presunto, enchidos, sardinha, a broa caseira e a botelha do vinho. E outra vez se ouvia o soar do pirtigo de pau de figueira e as mulheres em roda compondo a carreira.

Passado o calor, já finda a malhada, escolhia-se a palha menos quebrada, fachas de colmo que as mulheres usavam para encher os colchões e encabar as cebolas e também se guardava para cobrir na fazenda a fraca cabana que servirá de abrigo se houver trovoada. E a palha miúda guardada na loja faria de inverno a cama do gado e esteira para a gente se houver o serão.

Ficava na eira o grão estendido que as mulheres varriam juntando-o num monte. Era delas, depois, o acto de erguer, cestas de verga, bem cheias, postas ao alto, o jeito das mãos como se fora a tremer e o vento da tarde a limpar o grão, mulheres de joelhos, vassouras de giesta, a cuanhar as praganas.

E uma arca bem cheia. Taleigas de grão, a mó de moinho e a moleira que vinha, guardada a maquia, trazendo a farinha. E o pão amassado na funda masseira, a massa tendida na baqueadeira, e dentro do forno o pão a corar.

E o pão sobre a mesa!…