Uma nau chamada Sara

por Sara Augusto | 2014.04.06 - 20:19

Era dia do Santíssimo Nome de Jesus, 15 de Janeiro de 1736. João Baptista de Castro, absolutamente exausto da correria dos últimos dias, partiu de Roma pelas dez horas. Não o acompanhei como tinha sido minha intenção. Fiquei na cidade mais um mês e, quando regressei ao reino, fiz o percurso por terra. Acabou por ser uma ideia infeliz mas na altura pareceu-me um desafio à minha medida. Depois conto.

João Baptista partiu bem agoniado para Civitavecchia, não só pela saudade da terra que deixava mas também porque levava pouco dinheiro consigo e não tinha a certeza de em Génova achar letra que o socorresse. Não pude ajudá-lo… também eu gastara tudo. Mas percebia bem as saudades do meu amigo, que em poucos meses se tornara mais romano que alguns meus conhecidos e falava perfeitamente o italiano. Gostava muito de o ouvir falar, acompanhado do gesto preciso e entusiasmado, mas eu gostava ainda mais de responder num português rápido e doce quando alguém me interpelava. João Baptista olhava-me de lado e depois comentava: a menina não teve tempo de aprender a língua todos estes meses? Não me ralhe, reverendo, aprendi a dizer coisas interessantes em várias línguas, coisas que não me atrevo a repetir-lhe. Fingia-se zangado comigo e depois falava-me em latim, meia hora seguida, sobre a necessidade de amar a Deus sobre todas as coisas, do arrependimento e da penitência. Retorqui-lhe: et diliges proximum tuum sicut teipsum? Sim, quoque, respondeu já risonho como sempre costumava estar.

Despediu-se de mim com um aperto de mão e um até sempre comovido. Obrigado pela companhia, querida amiga, e por ter lido o meu diário… às escondidas. Onde tem as folhas que faltam na relação de Roma? Devolvi-lhe as partes do manuscrito e vi-o atravessar a ponte dos Anjos, pela última vez. Tinha uma surpresa para ele. Mais tarde.

No dia seguinte chegou a Civitavecchia e correu a ver as galeras de Sua Santidade e os grossos muros da fortificação da autoria de Miguel Ângelo. Debruçou-se numa das ameias, admirando-se que a delicada mão que esculpira a Pietà tivesse pensado tão grossos muros sobre o Mediterrâneo. Teve tempo de voltar ali muitas vezes, pois esperou seis dias por embarcação para Génova. Entretanto conseguiu lugar na Ostiaria della Fortuna por um preço razoável, que incluía comida e bebida, e todos os dias dizia a sua missa, recebendo esmola que não recusava por lhe ser tão necessária. A cidade era pequena… caminhou, sentou-se, conversou, confessou, pensou, escreveu. A 21 de janeiro conseguiu lugar numa embarcação francesa, que em dois dias o pôs em Génova.

E aqui esperou um mês. Só conseguiu acertar a partida para 23 de fevereiro. Mas Génova era um porto rico e a cidade tinha muito que ver. Teve crédito com um conhecido banqueiro e hospedou-se numa ostiaria onde o trataram muito bem. Depois de caminhar o dia inteiro, de visitar igrejas, mosteiros, bibliotecas e palácios, sentia-se um pequeno rei quando lhe serviam cinco pratos ao jantar e três à ceia, sempre com muito asseio. No início ficou incomodado, mas depois pensou no tempo que passaria embarcado e achou que era melhor comer tudo o que lhe davam. E enfim partiu, embarcado numa nau inglesa. Quem é o capitão? Perguntou ao marinheiro que desembarcava grossos volumes. Chama-se Richard Baker. Na vinda para Roma viajei na Grislel, disse João Baptista. Sim, conheço a nau, comentou o marinheiro, mas está parada por causa de um naufrágio que sofreu, quase afundada. João Baptista olhou a nau que se erguia à sua frente, com as velas baixas, mas galharda nas fitas que atravessavam o convés, com a proa desenhada numa figura de sereia dourada. Como se chama a nau? O marinheiro colocou-se ao seu lado, semicerrando os olhos à luz do sol branco de fevereiro. Chama-se Sara.

Creio que João Baptista estremeceu ao ouvir o nome. Sorrindo, tirou da bolsa as seis moedas de ouro e, também sorrindo, colocou-as na mão do capitão protestante que o levaria de volta ao reino. E embarcou, confiante, como se entrasse em casa. Perdera o ar de menino, mas continuava curioso e travesso, sempre pronto para tudo. Passeava pelo convés e metia conversa com os marinheiros, ajudando aqui e ali a puxar as velas quando no golfo de Leão sofreram larga tempestade. Mas eu via como de súbito se afastava, se encostava à amurada, e punha os olhos no poente, saudando as águas do Atlântico. Chegada a nau à ribeira do cais, desembarcou devagar e olhou para trás.

Tive vontade de naufragar.

Nasceu em Viseu. Investigadora e professora universitária no campo das Ciências Sociais e Humanas.

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