Um beirão que nunca vergou perante os ventos da adversidade.

por Aquilino Machado | 2014.09.12 - 10:41

 

Aquilino Ribeiro, filho de Joaquim Francisco Ribeiro e de Mariana Rosário Gomes, nasceu há 129 anos. A sua escrita continua viva e apontada para o futuro. Uma sombra tutelar para que nos devemos voltar, “cultivando a inquietação como fonte de renovamento”.

A moldura do seu território emocional assentava nas serrranias das Terras do Demo, numa consciência de pertença que nunca haveria de abandonar como o seu horizonte de referência: “quando se passa à vista dessas serranias, perfiladas no horizonte, que têm o seu quê de monticulações dos formigueiros, cheias de povos, de passaredo, de bicheza humana e montesinha, toma-nos, da projecção de nossa pequenez sobre a imensidade e o mistério da distância, um sentimento que tanto pode ser de exaltar como de deprimir” (Geografia Sentimental).

Viveu arrebatadamente o seu tempo, levando-o a descobrir outros mundos como poucos o fizeram, a vivê-los e a deslumbrar-se com os ventos de mudança que espessavam as latitudes revolucionárias das primeiras décadas do século vinte. Acalentando sempre um verdadeiro culto pela liberdade e uma inabalável confiança em que a igualdade é o caminho irreversível dos homens, fez da escrita o seu combate inconformado pelos mais fracos, o mundo de onde nascera.

Na verdade, esta inspirada fidelidade às origens esteve sempre presente no compasso da sua vida quotidiana, sobretudo na forma como deitava mãos à enxada e desbravava a única quinta que verdadeiramente tinha, a escrita:

“Nunca soube o que era servidão aos preconceitos, às classes, nem mesmo ao gosto do público. Se pequei, pequei por conta própria, exclusivamente. Em todos os meus livros, se pode verificar mais ou menos esta rebeldia de carácter” (Aquilino Ribeiro).

Na sua vida nada foi fácil: exílios em França, regresso clandestino, participação na Revolta do Regimento de Pinhel, prisões e fugas aventurosas, novo exílio em França e retorno a Portugal na década de trinta.

Então, sem outra fonte de receita que a dos seus livros fez da labuta o seu território de liberdade absoluta e da primazia do pensamento livre. Cartografou novas paisagens literárias de onde emana um espírito, uma intensidade tão forte que a presença física dos sítios ainda revêm nas evocações dos textos e nas memórias dos feitos que ali terão ocorrido. O monumento literário ficou para sempre, rebelde e vivo, na sua eternidade absoluta.

Espírito insubmisso até ao fim da vida, foi em nome da Liberdade de expressão que, já na velhice, situou o livro “Quando os Lobos Uivam”. Observou o meu Pai, o maior de todos os aquilinianos, num tocante e belo texto: “modestamente reclamava-se apenas inconformista, que apontava como elementar dever de qualquer artista que se preza, tinha por matriz uma fidelidade que nunca traiu: – o mundo humilde de onde partira”.

Em 1963, discursando, por ocasião das comemorações do 50º aniversário da sua vida literária, disse:

meus queridos camaradas, olhem sempre em frente, olhem para o sol, não tenham medo de errar sendo originais, iconoclastas, o mais anti que poderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do restelo (…). E, enquanto vivermos, façamos de conta que trabalhamos para a eternidade e que tudo o que é produção do nosso espírito fica gravado em bronze para juízes implicáveis julgarem à sua hora”.

Um monumento literário desta elevação renasce a cada leitura que se faça. Hoje, para nosso encantamento, faz 129 anos que nasceu este mestre de espirito insubmisso. Um beirão que nunca vergou perante os ventos da adversidade.