Paraíso Perdido

por Sofia Amaro | 2013.11.30 - 12:42

Entre as hostes lusitanas comentava a dureza, os olhos de cálculo e a pertinência sagaz destas gentes, que profetizam uma ínclita bondade nas supostas redes de caridade social. Redes, associações, plataformas, que servem apenas para angariar uns cobres para os irmãos. Sabem eles que galvanizam a sociedade e tocam mais depressa no céu do que aqueles que desesperam. São estes supostos povos de economia poupada nos bancos, outrora franco e florim, tantas vezes parcos nas roupagens para não alimentar a suspeita do vizinho, que são o espectro da riqueza europeia. Tudo se vê através da janela destapada, para parecer aos olhos do estrangeiro, aquele a quem presta indulgência, uma pessoa humilde e parcimoniosa. E ele observa esse mesmo estrangeiro com desdém disfarçado de bacoco filantropismo.

Já ouvi em muitas bocas jesuítas, “andam rotinhos e guardam a melhor camisa para o dia de festa”. Foi nesta fé reformada, que o céu se comprou na esquadria humana. Fé iniciada por Calvino, fortalecida por Bullinger e Ulrico Zuínglio.

Esta ascese redentora começou a ser utilizada como arremesso para mudar os excelsos hábitos do aldeão e dos acólitos, seguindo tempos impostos pela rigidez e escondidos sob a capa de uma suposta reforma. Os tempos deixaram de ser os tempos de transumância na montanha suíça, as tulipas medraram nos países baixos, e transformaram-se em Tulip, tese dos cinco princípios calvinistas traduzida num esquema moral. Um opúsculo social e económico segundo Weber. Tratando-se de um movimento paradoxalmente teológico e iniciador de um novo capitalismo, talvez assim se explique a benção destes povos com ouro e diamantes. Até o tomate se transformou em dinheiro nestas terras supostamente inférteis, mas exímias em trabalho e perseverança. O sul do nosso advento, ajudado pelo Concilio de Trento e pelos jesuítas, com a França liberta dos seus huguenotes, não deu tréguas e permitiu apenas o pão que o diabo amassou. Aos pobres, os penitentes, que lavravam a terra de sol a sol para colher apenas uma nabiça ou uma sopa de pedra restava apenas um pedaço de céu nesse imenso alto das alturas. Enquanto os reformistas, para além de ganha-pão e progresso, podiam concluir com as suas orças que foram eleitos por Deus, mesmo que tivessem, para além-fronteiras, a fama de pães-duros. Eles sempre souberam que teriam proveito nesta vetusta farsa. Vejam bem o que restou do antigo Congo Belga, agora República Democrática do Congo, e do Suriname.  Saques e barbárie para fornecer progresso e riqueza à coroa. Mas a culpa por si só não morreu solteira. Seria anacrónico se todo este mecanismo capitalista se reduzisse ao proselitismo reformista da época, mas talvez explique as coincidências que ainda hoje explicam este carácter avarento e a assimetria evidente entre o norte e o sul.

Assim me passeio nestas ruas de traços comedidos e ufanos estaminés, com a glória de Brueghel e Jan van Eyck. Observam-me olhos de raposas finas, os tartufos, e depois dão um euro a um pobre que mendiga na rua e tiram-no com a mão inteira. E nós cantamos, na esquadria luminosa e silente das nossas ruas, com mosteiros construídos supostamente no céu, lamentos, porque somos pobres, malfadados. Ouve-se no recorte das janelas, “pobre, sim, mas de cara lavada”. Falta-me dizer, porém, que foi neste sul, pobre, que assisti aos maiores exemplos de generosidade. Uma esteira humana que vai para além da terra e do que dela podemos subtrair. Somamos tragédias, somamos património, somamos humanidade. E eu uma estranha passageira entre estes dois mundos há séculos divididos pela reforma e contrarreforma, deixando a ferida por cauterizar, porque o sangue extrapolou há muito o massacre de São Bartolomeu, a morte dos anabaptistas e dos sacerdotes. O sangue derramado erigiu uma fronteira entre o norte e o sul da Europa, bastando verificar que todos os anátemas e credos estão agora inscritos em tratados. Foi por isso que esta história obliterada ao tempo nos afastou para sempre do paraíso. O paraíso perdido.

Sofia Amaro nasceu em Mirandela, Trás-os-Montes. Licenciada em Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa, traça o seu percurso académico na área das Relações Internacionais e envereda por um mestrado em Pedagogia na Universidade de Liége, Bélgica, país onde reside. Tem várias obras transversais à escrita, desde o cinema de animação, como argumentista e guionista do filme A Estrela de Gaspar para a Animanostra /RTP, à banda desenhada para a Pública (suplemento do Jornal Público) e Beraca em co-autoria com Pedro Brito, assim como outras publicações. A última como jornalista na revista belga La Revue Nouvelle. Tem uma relação umbilical com o teatro, dedicando-se várias vezes à leitura de autores como David Lescot ou como autora da peça A Cartografia do Medo. Recentemente publicou O Umbigo de Deus laureado com duas menções honrosas, o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes e o Prémio literário Alves Redol, e em breve termina um novo romance. Como um pêndulo continua a escrever sobre os indícios humanos, a natureza e a relação entre as esferas como um derradeiro sinal de metamorfose.

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