OS MEUS OUTONOS DE VISEU

por Alberto Correia | 2014.11.26 - 11:26

 

Sempre que me ponho a considerar a fisionomia desta cidade, abstractamente, como uma imagem feminina, figura-se-me prazenteira, amável, buliçosa: numa palavra, eminentemente jucunda.

Aquilino Ribeiro, in Arcas Encoiradas.

 

 

Vai muito tempo, quase um carro de anos, diria Aquilino, chegava eu a Viseu, a provinciana cidade que escolhera por razões que nunca soube bem decifrar, para ensinar História no Liceu. Era Outono em começo, talvez a meia tarde, estava sol e da janela alta da camioneta que me trazia de Lisboa eu descobria pela vez primeira os laterais renques das tílias da Avenida que na altura se não designava ainda por 25 de Abril, e nunca mais, em minha vida, eu esqueci o esplendor da aguarela que aquele Outono me oferecia.

E, ano por ano, ao reparar naquelas tílias, era como se, ao jeito de estudante e enamorado, eu abrisse o livro das minhas Horas na página onde guardara, como guardei um dia, a haste singela de uma papoula amarela que me deram.

Ontem foi assim quando saí à meia tarde e me detive a meio da Avenida antiga para olhar as tílias, lembrado da viagem de há muitos anos, lembrado do encantamento primeiro e eu senti, como Aquilino ao aportar a Soutosa, ele nos começos do Verão, quando as tílias da sua quinta resplandeciam de verde, eu senti essa paz que Adão deveria ter sentido no seu jardim antes da perturbação que lhe trouxe o rasto da serpente. E bendisse a Mãe-Natureza porque permanecem iguais, belas e generosas, estas suas criaturas, bendisse essa cor de feitiço como se bronze fosse e nossas mãos o tivessem amaciado, bendisse a sombra de Verão e o perfume das tardes que o zumbido das abelhas povoava.

Lembrei-me dos homens também, na meia tarde de ontem, nessa tarde de Outono em Viseu, de alguns me lembrei, dos outonos que sobre eles se tombam, mas neles não descobri o suave viço das minhas tílias, antes vi, murchos, os sentimentos de bem que nos homens se designa por amor, antes vi ressequidos os sonhos, enevoados os olhos de tanto mal-querer, traídas as esperanças de quem neles procurava a rectidão que só o fuste das tílias sabe apontar.

E dos meus outonos de Viseu ficar-me-á, por bastante, talismã e memória, indelével, a cor das tílias.