Os dias de “Entrudo” da minha infância

por Alberto Correia | 2014.02.25 - 20:08

O “Entrudo”, designação mais corrente que se dava ao que habitualmente designamos Carnaval, era e é ainda um dos mais expressivos ciclos festivos do Calendário que nos organiza os dias, ainda que hoje o quadro das tradicionais manifestações se centre no tríduo carnavalesco que vai de Domingo Gordo ou de Carnaval à Terça-feira Gorda.

Nas comunidades rurais da Beira, particularmente as da zona serrana que Aquilino Ribeiro magistralmente descreveu, o longo ciclo do “Entrudo” tinha seu começo à volta do Domingo da Septuagésima, o quarto em ordem na relação com o Domingo Gordo, com a celebração das quintas-feiras das “Amigas” e dos “Amigos”, das “Comadres” e dos “Compadres” que, instaurando uma vaga atmosfera de ludicidade faziam apelo à glorificação de um grupo sexual no seu respectivo dia constituindo-se, simultaneamente, como registo da natural oposição entre os diferentes grupos.

Iniciavam-se, ao Domingo, ainda que timidamente, as deambulações de mascarados, e era em segredo rigorosamente mantido por cada um dos grupos, que se iniciava, sob a responsabilidade dos rapazes e raparigas ainda solteiros, a preparação de antropomorfos, no geral um corpo de palha enfarpelado com velhos trajes, às vezes designados como “Compadre” e “Comadre, que seriam sacrificados pelo fogo na Terça-feira de Entrudo.

Cerimonial activo e talvez a nótula mais representativa e visível deste tempo carnavalesco eram as refeições confeccionadas com base na carne de porco, particularmente os enchidos e aquelas partes que mais cedo haviam tomado, na salgadeira, o ajustado sal, como os pés, os ossos da suã, a carne da cabeça ou do rabo, a que uma tradição familiar conferia o exacto momento do consumo.

Era ainda neste período de um Inverno a anunciar seu fim, marcado pelos serões, que aconteciam esses episódicos cerimoniais da “Serração da Velha” e dos “Casamentos burlescos” levados a efeito, noite alta, pelos rapazes, sátiras carregadas de humor que pretendem restituir através de um controle assim operado, a coesão transgredida no seio da comunidade.

As deambulações de “mascarados” ocorriam, como elemento marcante, no Domingo e Terça-feira de Carnaval. Rapazes solteiros, homens casados dados à folgança e um rapazio divertido, travestidos de mulher, transfigurados de velho ou velha, caricaturando bêbedo ou corcunda, as caras pintadas com a fuligem do forno, envergando frustes máscaras de madeira ou cartão ou cobrindo o rosto com velha toalha de renda esfiapada, percorriam as ruas da aldeia, galhofeiros, interagindo muitas vezes com as mulheres que se aquecem ao sol, os homens que jogam a sueca na taberna e a malta do bailarico que acontece no Adro ao som de concertina.

Não raras vezes sucedia, em tarde de Terça-feira, fazer-se o “Enterro do Entrudo”, inocente paródia que comportava o cortejo que transportava em esquife improvisado, com choro de carpideiras, o antropomorfo de palha e trapos.

Lugares há, como em Lazarim, na fronteira com o Douro, ou no Touro, populosa freguesia do Alto Paiva, onde se mantêm, reveladores da ancianidade destas práticas, cerimoniais complexos onde a “máscara”, a sátira social dos “testamentos”, o “julgamento” parodiado do “Compadre” e da “Comadre”, ou do “Rico Irmão”, como acontece no Touro, o “Cortejo fúnebre” com as carpideiras e o “enterro” ou a simbólica morte pelo fogo, a “queima”, ganham esse referencial singular da coesão que internamente se agencia no seio da comunidade que, de modo autárcico, se reproduz e se governa.