Os “Casamentos de Entrudo” (Touro – Vila Nova de Paiva)

por Alberto Correia | 2014.03.21 - 07:53

Naquele Entrudo, como era de lei, a rapaziada andou a casar as donzelas pelas portas das quintãs e dos serões e encruzilhadas das ruas.
Aquilino Ribeiro, Terras do Demo.

A descrição primorosa que Aquilino Ribeiro faz dos “casamentos” burlescos que aconteciam pelo Entrudo, na Seitosa, vão quase cem anos, é hoje um saboroso texto etnográfico que evoca, para quantos já atravessaram o meio século e nasceram nas Terras do Demo uma prática ainda então em uso nas aldeias da sua infância.

Uma rapaziada atrevida, obediente a velhos usos, fazia ecoar no silencioso negrume da noite do ciclo carnavalesco um vozeirão ampliado pela criva de um regador ou através de avantajado funil os “proclamas” de um casamento de paródia entre uma rapariga do lugar e uma figura masculina, um ou outro apresentando em termos de físico retrato ou de traços de carácter, claros sinais de desajuste para que tal união pudesse cumprir-se. Alegres e cáusticas surriadas seguiam a proclamação, entre os rapazes, enquanto dentro dos serões, que era ainda seu tempo, ou no interior das moradas, os visados sofriam mal as graçolas que nem sempre deixavam passar em vão.

Caíram em desuso tais práticas nas Terras do Demo e apenas se mantêm vivas nas vizinhas Terras do Alto Paiva, na freguesia do Touro, transferido este auto de costumes para a noite de Terça-feira Gorda que, agora, se desenrola às claras no Adro da Capela de Santo António onde a gente se reúne nesse simbólico acto feito mais de ludicidade do que de escárnio como acontecia noutro tempo.

Dois actores, masculinos, sobem à tribuna improvisada e, agora, com a ajuda técnica da ampliação sonora, estabelecem entre si o discurso antigo:

– Ó companheiro d’além!…

– Que é?!… Responde o outro.

– Há aqui uma rapariguinha muito bonitinha que se quer casar!…

– Quem é ela?…

– É Fulana!… (Menciona-se o nome).

– E com quem?…

– Com Fulano. (Menciona-se o nome). – Estará bem?!…

– Muito bem!.. Muito bem!..

Vem então a surriada do povo, activo participante nesta farsa que se prolonga o tempo justo até que o pregão corra as ruas do lugar de modo a não deixar solteira qualquer das raparigas que por lá têm morada.

E quando a meia-noite dobra e as “Cinzas” anunciam os mansos cometimentos da Quaresma, o povo recolhe às habituais moradas, os risos e os amuos esquecem-se para voltar, a tradição mantida, no ano que há-de vir.