O outro cão sem plumas

por Adriane Guimarães | 2015.05.31 - 22:55

Nota sobre o poema

O poema O outro cão sem plumas não se trata de uma paródia sobre o povo português, mas uma paráfrase de O cão sem plumas, do poeta João Cabral de Melo Neto, sob a (re)leitura de uma realidade que, é bom que se diga, em muito se parece com a realidade brasileira nos seus mais variados aspectos. Este poema faz parte do livro O outro cão sem plumas e novos poemas (em vias de publicação pela editora Virtual Books), os quais, sem nenhuma exceção, foram todos escritos em Portugal.

O outro cão sem plumas

I

Em Coimbra há também
um cão sem plumas.
Os dentes famintos mordendo
a gravidade das coisas.
Nas noites frias de inverno
o cão dorme nas calçadas
(Que pena, tão triste!
Que pena, tão esfomeado!
Que pena, tão magro!),
e ninguém lhe oferece
pão e sopa quente.

Nenhuma mão de anjo
ou de rapariga abençoada
vem acariciar-lhe a fronte.
Os pelos do cão não o aquecem
e ele se enrola em jornais velhos.
Na Rua das Lavadeiras,
no Beco dos Aflitos,
pela Rua Direita,
onde quer que haja um tapume
dorme o cão sem plumas.

O dono do cão
(diz ele o tempo todo)
que a culpa é do governo
que a rua não é abrigo de cães
e que a cidade
é uma memória imprevista.

Mas o cão que não entende de política
que não sabe a cor do dinheiro
treme de frio e fome,
mas sorri de si mesmo
e do pelo abandonado
e pela manhã anda como em bando
pelas ruazinhas apertadas
espremendo a existência
numa possibilidade infinita
de todavia existir.

II

Uma cidade é feita de madeira
depois de cimento e aço.
Uma cidade nasce da necessidade de fuga
nasce do desejo de partilha
nasce de uma ânsia reprimida.
Uma cidade não é um cão sozinho
são muitos cães a latir
são muitos latidos de fome.
Uma cidade é a memória
de todos os cães que já existiram
dos que existem
dos que estão por vir
e dos que nunca chegarão a ser.

Os edifícios são patas calejadas
que não cedem ao contato.
As janelas são olhos famintos
que pedem carne, carne, carne.
Que pedem piedade e… amor.
Os pelos são espinhos que furam a pele
e fere a matéria andante.

Um cão sem plumas
é um automóvel que passa
numa ruazinha movimentada
e não reduz a marcha.

III

Um cão sem plumas
é um homem
que é um caranguejo
emergindo do barro
tornando-se cão
e outra vez homem
depois descendo ao barro
moldando-se de novo
em caranguejo
em homem.

IV

Esta cidade é um rio
que nasce no Corgo das Mós
e vem descendo
ora para o norte
ora para o sul
separando cidades e cães
ate dividir o reino
em duas partes.

De lá, cão nobre,
de pelo liso e sedoso.
De cá, cão sem plumas,
atravessado pela paisagem
sem cor nem movimento.

V

Um cão sem plumas é um rio
cortado por casas
é um rio cortado por farpas
é um rio cortado por árvores.

Ando por esta cidade
e vejo-o nas ruas
ando por esta cidade
e vejo-o no circo
ando por esta cidade
e ele está nas vitrines
está nos cafés e nas gares
está miúdo tomando o seu caldo
sentado numa pedra de esquina
ele é a pedra retangular
é um cão sem plumas
que é um rio
atravessado por ele mesmo
sendo um cão somente.

Não diviso a aparência de cão
da de um rio.
Vejo-o, mas ele será sempre um cão.
Vejo, mas ele será sempre um muro
será sempre um rio
que é como um cão na calda
que é como um cão na pata
que é como um cão nos olhos
que é como um cão nos pelos
que é como um cão atravessado por canoas
e por montanhas
e por outros rios menores
na aparência de um cão.

VI

Este cão sem plumas é meu
não o toquem.
Fi-lo de um rio
de uma cidade que é um rio
de um muro que é uma cidade
que é um rio
de uma sombra que é um rio
e é uma cidade
que é um muro
e que é uma sombra.
Fi-lo de mim mesmo
na aparência de um rio
porque sou um cão manso e sem plumas.

Abracem o meu cão sem plumas
sou eu o meu cão
sou eu o rio que é um cão
sou eu esta cidade cortada por um rio
sou eu as esquinas onde todos os cães se cruzam
sou eu o desejo de existência
na língua suja do cão.

VII

O rio Mondego é um cão
abraçado a um poste
é uma cidade que se constrói
à beira de um muro
é um muro alto e partido
é um rio que corta a cidade
é a repetição contínua
de um animal sem patas
que trasteja pelas ruas
entre o pleno e o vazio.

VIII

Adoradores de cães,
amai-o.

Senhoras de igreja,
adorai-o.

Freiras enclausuradas,
beijai a pata do cão.

Todos vós sede
compassivos e piedosos.

IX

Uma coisa é uma casa
outra coisa é um rio.
Uma coisa é um sapato
outra coisa é um muro.
Uma coisa é uma cidade
outra coisa é uma rua.
Uma coisa é um cão
outra coisa é um homem.
Uma coisa é um terno
outra coisa é uma gravata.
Uma coisa é vestir-se
outra coisa é estar nu.
Uma coisa é um ventre vazado.

X

Este meu cão é tão sábio
tem um olho que me observa
de seu lado direito.
Olho-o também do lado direito
e ele recua o olhar para a esquerda.
Tão esperto este meu cão
tão alheio a tudo.

Conduzo-o como a um carro.
Suas patas são pneus
que me levam para onde bem quero.
Não preciso pedir que me leve,
meu cão sabe dos meus desejos
e cumpre-os todos sem reclamar da vida
sem pestanejar contra ninguém.
É um cão manso por hábito,
nasceu do meu desejo
de que a vida nele se constituísse,
de que nele a vida fosse um motivo.

XI

Esta cidade é um rio invisível
é um cão nadando no meio da rua
entre barracas e o guarda municipal.

Carlitos, meu amigo, não caçoe de meu cão.
Carlitos, não pise a pata do cão.
Não maltrates o meu cão, Carlitos!

Por Deus, alguém faça alguma coisa,
esse homem não me ouve!

XII

Numa cidade como Coimbra
todos os cães são aflitos,
todos os cães andam nus,
todos os cães são pequenos,
todos os cães sofrem,
todos os cães rastejam,
todos os cães são memórias
de si mesmos.

Nesta cidade de Coimbra
o rio é como uma faca de dois gumes.
Quer passe de cá, quer passe de lá,
o rio corta dos dois lados.

Por isso o meu cão sem plumas anda todo sujo
anda todo esfarrapado
anda todo cheio de cicatrizes e sinais.

Ah, Senhor dos aflitos,
esta é uma cidade imprevista,
é um rio que é como um cão,
é um cão que é como uma cidade,
é um latido de fome latindo
todos os dias, em todas as partes,
onde quer que haja existência,
onde quer que o sol ilumine
a quem passa,
a quem passa humildemente
como um cão sem plumas.

GUIMARÃES FILHO

Adriane Ribeiro Guimarães, dito Guimarães Filho, é poeta e escritor, membro efetivo da Academia Jataiense de Letras, em Jataí, Goiás, Brasil, onde ocupa a cadeira nº 14. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de setembro de 2012 a agosto de 2014, cursando Letras-Português. Publicou em Coimbra os livros POEMAS DA AMIGA e POEMAS DA AMIGA II, ambos influenciados pelo livro Vinte poemas de amor e uma canção desesperada do poeta chileno Pablo Neruda. Atualmente no Brasil, dedica-se aos trabalhos desenvolvidos pela Academia e ao seu fazer literário.

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