JORGE BRAGA DA COSTA

por Alberto Correia | 2015.02.14 - 20:47

 

In Memoriam

Singular o rasto que Jorge Braga da Costa deixa nesta terra, agora que a abandona, cumpridor da viagem de há muito talhada igual á que todos trazemos também marcada sem que evitar se possa mudar-lhe o rumo.

Jorge Braga da Costa era um homem bom, sentia-se nessa aura que o envolvia e nos envolvia quando nos sentávamos com ele à mesa do Café, lugar privilegiado de encontro, espaço de divagação, território efabulado de viagem por caminhos de uma geografia onde multiplicou seus passos.

Por mais de trinta anos o tive por amigo, que ele era desses de infinita fidelidade, essa que faz os grandes homens, ao contrário de uns Judas que eu conheço por aí, e minhas palavras serão como pequena flor colocada em sua campa, mística, viçosa na extensão dos dias.

Quando passo por essa Beira fora quase sempre que reparo num muro velho de convento, de castelo, de igreja, no fuste coroado de um pelourinho, num humilde nicho de Alminhas, na piedosa fachada de uma capela erma, quando sobressai do ouro da pedraria a brancura de uma fachada barroca de templo ou de palácio, o inconfundível traço de Braga da Costa vem à memória, esse registo discreto como a sua figura, inteiro como a sua personalidade, quente como o amor que punha no seu gesto.

Guardo imagens sem conto em minha casa, imagens desse universo que ele entendeu como ninguém porque o seu traço, no papel, era como se fosse o gesto de sua mão percorrendo esses silhares aureolados do tempo, as sinuosas linhas de um brasão de armas como se estivesse desvendando os às vezes trágicos destinos dos seus possuidores e eu múltiplas vezes as desvelo, essas imagens, no papel. E uma há pendurada na parede branca do meu quarto onde ele escreveu uma frase que agora não transcrevo, mas que é permanente testemunho da quentura do seu sentir de amigo.

Seguiu de viagem, o amigo. E na distância apenas o meu gesto de dizer-lhe adeus.

Braga Costa