Instruções para usar a voz

por Maria José Quintela | 2013.11.28 - 17:05

primeiro: encostar os olhos ao vidro e narrar as vozes que sobem ao palco. se possível isolar as deixas para mais tarde separar o trigo do joio. convém fixar as perguntas a que ninguém responde e recolher o silêncio avulso. pode haver aí um qualquer subsídio biográfico. uma espécie de subúrbio omisso.

segundo: desafiar o espelho sem vacilar. de uma só vez e de corpo inteiro. é obrigatório espiar os ângulos desfavoráveis e registar as mais ínfimas rejeições. proceder depois ao incansável exercício de fazer cópias da ambivalência da boca até que a letra se torne indolor e surja sem rasuras. o corpo desarmado.

terceiro: ficar sozinho no escuro. descrever as sombras de cór. especialmente os movimentos em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. anular o umbral coincidindo sombra e pele. sem nunca nomear o óbvio. é este anonimato que irá separar a identidade do reflexo quando a luz te cegar.