DOS PRETENSOS PATRONOS DA FEIRA DE S. MATEUS

por Alberto Correia | 2014.08.21 - 19:09

 

 

Quase todas as cartas de feira portuguesas marcam o prazo da feira em relação a uma festa da igreja, quer seja a Páscoa, a Natividade da Virgem, o Corpo de Deus, ou o dia de S. Pedro, S. Miguel, S. João, S.ta Iria, ou S. Bartolomeu.

Virgínia Rau, Feiras Medievais Portuguesas, Subsídios para o seu estudo, Lisboa: Editorial Presença, 1983, p. 33-34

 

 

É reconhecido o singular papel da Igreja em Portugal como por toda a Europa no período medieval e no caso típico das feiras o mesmo se manifesta no facto de muitas das feiras instituídas o terem sido em data de festividade ou romaria de um santo, num sábio aproveitamento do importante concurso de romeiros. De outra forma se manifesta na escolha de uma data festiva, como por exemplo, o dia de Santa Cruz, ou o dia de S. Bartolomeu, não porque houvesse, por essa altura, no lugar de realização da feira, festa efectiva, mas apenas se assumindo esta data como episódica data de um Calendário correntemente seguido pelas camadas populares, senão também pelas outras.

Poderíamos ainda dizer que a dita “paz de feira”, conceito que em Portugal se revela na pacificadora legislação régia de que é exemplo maior o conjunto de determinações estabelecidas por D. Afonso III para a Feira de Trancoso-1273, generosamente ampliadas por D. João I para a Feira de Tomar-1420 (ambas aplicadas à feira franca de Viseu), deriva de uma preocupada acção da igreja que intenta diminuir peculiares manifestações de hostilidade que poderiam revelar-se nesses encontros.

A agora designada Feira de S. Mateus estabelecida em Viseu por Carta de Feira de D. João I em 10 de Janeiro de 1392 teria seu início no dia 3 de Maio, dia de Santa Cruz, importante festividade do mundo cristão e teria duração de um mês. Tal marcação, não lhe definindo lugar de realização, estabelecia-lhe um calendário, mas não lhe consignava verdadeiramente um patrono. E a posterior realização da feira que haverá de ter lugar no hoje ignorado sítio de Vila Nova (algures, no espaço da Cava dita de Viriato), junto à desaparecida Capela de S. Jorge e ao redor do seu dia – 23 de Abril, data para a qual foi mudada por diploma de D. João I que só indirectamente conhecemos, não determina tal santo de grande devoção régia como patrono da feira que, suspensa por algum tempo, encontrará a sua refundação em 1444, quando concedida por D. Afonso V ao Infante D. Henrique, duque de Viseu, mantendo-se o seu lugar na Cerca da Vala (actual Cava de Viriato).

Falecido o Infante em 1460, a feira passa como generoso legado que em troca pouco mais requer do que algumas missas rezadas, para a Sé de Viseu, cabendo a sua administração ao Cabido que logo toma posse do lugar da habitual realização. Mas acontece que em 1471, conferindo o Cabido o nulo rendimento da feira, solicita a D. Afonso V, alegando razões várias – época de vindimas com afastamento da gente e a preferência dos comerciantes pela europeia feira de Medina del Campo, – a sua mudança para Dia de Todos os Santos, 1 de Novembro, o que o Rei concede.

Não bastou. Em 1501 o Cabido intercede junto de D. Manuel para que transfira a Feira para dentro da cidade murada, desagradado do anterior lugar mercê das humidades do sítio e das indecências que por lá aconteciam. Mais uma vez o Rei lhe faz a vontade.

Ficara o Cabido com a obrigação de mandar celebrar em cada sábado uma missa por alma do Infante, outorgando ao capelão que a dissesse uma determinada avença retirada dos rendimentos da feira que nulos voltavam a ser em 1523 quando D. João III, provavelmente requerido pelo Cabido, manda entregar-lhe a necessária verba com que pudesse satisfazer os tais sufrágios por alma do Infante, quadro que se manteria “enquanto não houver ali feira”, diz o diploma. E parece que a desaparecida Feira não se terá voltado a realizar tão cedo, uma vez que o Cabido recebia ainda em tempo filipino esta avença real.

Em ignorada data vai o Senado Municipal, a Câmara, assumir a realização da feira, mas de tal orgânica nova só haverá frouxa documentação a partir de finais do século XVII, altura em que a feira se haveria de realizar já no dito Campo de S. Luís ou Rossio da Ribeira, onde se mantém hoje, alargado o espaço, num escolhido tempo de Setembro que envolvia o dia de S. Mateus que a igreja celebra a 21 do mesmo mês. Dessa estabelecida data dá testemunho Botelho Pereira nos seus tanta vez citados “Diálogos Morais e Políticos” – 1630, onde designa a feira como Feira Franca. E mais uma vez S. Mateus não aparece como patrono mas como elemento congregante de Calendário.

A documentação oficial, até bem tarde, até à entrada do século XX, designa sempre a feira como Feira Franca. Os jornais, até à entrada do século XX, falarão sempre da Feira Franca. O mais antigo dos Cartazes conhecido, datado de 1929, titula-a de Feira Franca. Todavia, um conhecido Edital do mesmo ano que estabelece o Programa identifica-a como Feira Franca de S. Mateus, designação que volta a aparecer num Cartaz de 1937, tornando-se por algum tempo recorrente até que a nomeação de S. Mateus substitua de vez os títulos anteriores.

A significativa voz popular, a dessa gente miúda que a Feira abundantemente convocava, essa manterá, pelo menos até meados do século XX, a expressiva designação de Feira Franca, quando a mesma já tinha perdido há muito esse abono de fiscalidade que lhe autorizava o nome.

Um dos curas de uma freguesia da Sé que em 1758 redige as requeridas “Memórias…”descrevendo o chão onde se realiza titula-a, à vez, de Feira de S. Mateus, Feira Franca de S. Mateus e refere-a como sendo quatro dias franca, ainda que um outro cura da freguesia contígua fale, provavelmente com mais correcção, de três dias.

Nos finais do século XX a Paróquia de S. José cujo espaço físico contém o Terreiro ou Campo da Feira passou a integrar o Dia da Paróquia de S. José com a finalidade de arrecadação da específica renda da Bilheteira. E o dia 21 de Setembro passou a integrar um cerimonial litúrgico festivo que passava pela celebração de missa e procissão que percorria arruamento da feira e onde eram participantes membros da Câmara Municipal.

Mesmo assim, só de uma forma indirecta e errónea, sem que outro aval se desse, S. Mateus se considerou patrono da Feira que, por hora, se mantém com o seu nome.

Porque a feira é uma entidade viva, como sempre foi, susceptível de mudança que a ajusta sempre ao seu fim implícito – o lucro da mesma enquanto actividade económica, ainda que, por arrasto, outras finalidades cumpra.