AS FESTAS DE VERÃO NAS “TERRAS DO DEMO”

por Alberto Correia | 2015.08.13 - 23:32

 

O mês de Agosto é o mês dos santos ao pescoço.

Aquilino Ribeiro in Aldeia

Aquilino Ribeiro traça em boa parte da sua obra e com o seu sublime jeito o faz, um fidelíssimo retrato das festas e romarias de Verão, esses primordiais veículos de sociabilidade que, com as feiras, tantas vezes associadas à festa, em seu tempo, esse tempo que largamente se estirou até aos meados do século XX, se estabeleceram como os grandes marcos que ritmavam a vida das aldeias montesinhas que, no seu dizer, pontuavam os picotos da Beira.

Já em Maio se anunciavam, os dias estavam fartos de crescer, romeiros madrugadores, burrinhas mansas e éguas tropiqueiras, colchas das Arnas a ajaezar, alforges carregados com os merendeiros, a capela surgindo na dobra da serra, filas de pobres de pedir, promessas pagas com dinheiro ou grão, terços rezados com os joelhos no chão, e o manso passar da procissão e a missa cantada e o sermão e os foguetes no ar e acabada a função os músicos sentados num coreto a tocar.

Merendeiros abertos e o cheiro bom dos frangãos, das filhós, e a concertina e o bailarico e as doceiras vendendo doce da Teixeira e beijinhos, e o sol a baixar do outro lado da serra, chapéus enfeitados com o “registo” do santo para a mulher colar no “frontal”.

Aquilino já não pôde ver a fita nova das estradas por onde já não circulava a mansidão dos burrinhos.

Não pôde ver a aventura de quem arriscou o salto para França na busca de pão. Não pôde ver que as aldeias ficaram, no fim, desoladas, jeito de espantalhos na paisagem onde alguns velhos teimaram ficar, guardiães da memória, ficaram à espera que os filhos pudessem voltar. Mas os filhos não voltam para demorar. Voltam em Agosto, como o luar. E a festa do Santo mudou de feição.