AQUILINO RIBEIRO E O PADRE BALDOMERO CIRIZA – II

por Alberto Correia | 2015.06.03 - 20:17

 

As Novenas à Senhora de Lapa em 1900

As festas de S. Barnabé foram as derradeiras da quadra. De longe e de perto caiam na Lapa as mesmas açuladas de povo, com as mesmas procissões votivas, o mesmo gentio curioso e miraculado, os mesmos ou outros abades… (Aquilino Ribeiro, Uma Luz ao Longe, Bertrand Editora, L. da e Circulo de Leitores, Lisboa, 1985, p. 112)

Isto escreveu Aquilino em “Uma Luz ao Longe”, evocando tempos da às vezes tempestuosa adolescência que passou no Colégio da Lapa de onde o seu mestre, Padre Ferreira, provavelmente o Padre Leonel do romance, arrastava a pequenada para os episódicos actos devocionais que ocorriam dentro do Santuário.

Um destes piedosos actos devocionais eram as demoradas Novenas que ali se realizavam, a dita de S. Barnabé, entre 2 e 11 de Junho e a de Nossa Senhora entre 6 e 15 de Agosto, ambas convocando inúmeros devotos, ambas se encerrando com vistosos festejos que, no caso da novena de Junho, eram integrados pelas procissões que ali vinham de diversas paróquias distantes algumas léguas.

O Padre Francisco Pinto Ferreira, Capelão do Santuário e Director do Colégio da Lapa no ano de 1900, envia no dia 17 desse mês uma extensa crónica para o “Comércio de Viseu” onde, com saborosa prosa, dá conta do êxito que foi a Novena de S. Barnabé participada por assistência numerosa.

Demora-se louvando a eloquência e o sentimento do pregador que nesse ano arregimentara e que caracteriza desta maneira: Durante a mesma pregou todos os dias o Padre Baldomero Ciriza, religioso do Sagrado Coração de Maria, o qual, apesar de ainda não ter uma pronunciação portuguesa por estar ainda há pouco tempo neste reino, contudo falava com tal convicção que a todos arrancava lágrimas dos olhos e gemidos do coração, sobretudo quando se referia à ternura da Virgem da Lapa. (Comércio de Viseu, Ano XIV, N.º 1453, 24 de Junho de 1900).

Demora-se depois o Padre Francisco a descrever a organização paroquial das procissões de votos que chegam de longe, Magueija, Penude, Mezio, por exemplo, antecedidas de piedosas práticas, comenta o arranjo dos andores que transportam, os cânticos que entoam na passagem pelos poviléus da serra, os rosários de castanhas que suspendem ao pescoço lembrando milagre antigo. Como curiosidade esclarece a ausência, nesse ano, da peregrinação de S. João de Tarouca que não viera com medo das represálias de povos que encontraria no caminho com os quais se tinham gerado desavenças.

Refere que nesse ano promoveram pela primeira vez no Santuário o que os franceses chamam marcha Aux flambeaux, que me parece ainda não ter palavra correspondente em português e a que por isso tomo a liberdade de dar o nome de procissão de luzes (…) de um efeito surpreendente. (Ibidem).

Detém-se novamente o Padre Francisco a referir a massa de povo, a presença dos alunos do Colégio e, com alguma poesia continua o seu comentário a respeito da cerimónia de encerramento da novena: O canto suave e entusiástico, a multidão das luzes, o silêncio de tudo o mais, o belo estado da atmosfera, e até a lua derramando seus mágicos fulgores sobre esta multidão compacta, tudo nos arrebatava e tirava de nós e nos elevava ao céu. E, por fim, como chave de ouro, o Rev. mo padre Baldomero subiu ao púlpito, eram dez horas da noite, fez um brilhantíssimo sermão. (Ibidem).

Menos prolixa, a notícia que o padre Ferreira dá da Novena de Agosto refere a repetida vinda do padre Baldomero Ciriza que traz consigo o padre Raymundo Torres para a pregação da dita Novena (Comércio de Viseu, Ano XV, 26 de Agosto de 1900 ) situação de que dera notícia em número anterior da citada publicação. (Comércio de Viseu, Ano XV, N.º 1464, 2 de Agosto de 1900).