A tenda do latoeiro

por Alberto Correia | 2014.05.26 - 14:00

Quando subo ou desço as Escadinhas da Sé, quando subo ou desço a Rua de Augusto Hilário, aquela que antes foi a Rua Nova, quando atravesso esse evocativo chão do Largo de S. Teotónio e reparo nas oficinas de latoeiro que ali permanecem, se é caso de a porta estar aberta, se é caso de ouvir o bater do martelo ou o tilintar da Folha de Flandres sobre a banca, dou comigo a evocar esse medievo tempo que, quase sem se dar conta, chegou até nós, chegou até nós, ora parecendo que chegou ao fim do caminho. E lá vem a memória dos mesteirais antigos, gente dos ofícios de prestimosa serventia, gente do povo com seus Regimentos formados, erguendo bandeira tantas vezes, de lugar marcado na solene procissão do Corpus Christi e representantes eleitos, com voto, nas sessões do Senado municipal.

Tempo de memória, tão só!… Que, agora, já se não arma ou é raro ver armar tenda de latoeiro na feira das terças-feiras…

Já ninguém compra cântaros de ir à fonte. Já não se usam medidas de almude ou de quartilho, nem funis para tonéis, nem baldes de vianda, nem alcatruzes de nora. Já ninguém se alumia com luzes de candeia presa a velador. Os lavradores e os pastores já não utilizam lampiões. Nem os romeiros. As lavadeiras já não descem à Ribeira com as selhas carregadas com a roupa de lavar. Já ninguém precisa de regador no Arrabalde, nem de armadilhas de toupeiras, que já ninguém ali planta hortas, nem cultiva pés de milho.

Rocas para colher maçãs nas macieiras ainda há quem compre. E assadores de lata para castanhas. Tarros de ordenha e acinchos de queijo vendem-se também para a serra onde ainda há velhas pastoras. Almotolias de azeite também se vendem, quanto mais não seja para decorar a prateleira.

Mas, nas suas tendas, os latoeiros dizem que estão quase de portas a fechar.

Feira de S. Bartolomeu em Loureiro de Silgueiros, anos 60.

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de Arquivo de Foto Germano)