Trezentos quilómetros, dia e noite, por Tui, Santiago e Corunha, em 1904

Ao contrário do que sucederia com os ciclistas amadores de agora, o esforço não é exaltado, nem sequer referido. Não há nele a glória que a actualidade lhe concede.

  • 21:46 | Domingo, 22 de Março de 2020
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O boletim do extenso passeio de bicicleta pela Galiza está assinado por três homens: Ricardo García y Gomez, Frederico Cockrum e Francis J. Nugent. Estes ciclistas partiram de Tui às 5 e 25 da manhã e chegaram a Santiago de Compostela às 11 da noite. Permaneceram aqui quarenta minutos e, se estou a interpretar bem o quadro, descansaram coisa de três horas em Ordenes, de onde saíram às 5 da manhã, passaram pela Corunha, e entraram em Artejo à uma da tarde. Continuaram, sem desfalecer, até Santiago, onde pararam, desfeitos de cansaço, às 2 e 30 da madrugada. Cumpriram nisto 302 quilómetros, o que é verdadeiramente admirável. Agora, vou ver como a fadiga se repercute no relato.

Ao contrário do que sucederia com os ciclistas amadores de agora, o esforço não é exaltado, nem sequer referido. Não há nele a glória que a actualidade lhe concede. Xavier d’Andrade não é o único a desprezar a competição e os seus excessos físicos. O desporto era uma actividade de cavalheiros e não uma actividade física desprovida de elevação. Sendo assim, os escrivães da volta pela Galiza ignoraram o efeito atlético que cometeram. Concentraram-se nas indicações práticas e nas apreciações sobre a paisagem e as vilas e cidades.

Começam assim: «De Valença a Tui, ponte internacional sobre o Minho. Formalidades aduaneiras: apresentação de fiador ou depositar os direitos [de] oitenta pesetas por cem quilos.» Seguem-se as belezas de Tui e a estrada para Pontevedra. «Hotel Posadas não é centro ciclista.» Porque havia de ser? Seguem-se menções à qualidade das estradas, às subidas, às curvas em S, a formosura do vale de Porriño, às estradas planas, excelentes e arborizadas, ao «soberbo viaduto metálico», à curva em U, aos panoramas magníficos, à vista de Pontevedra, a duas grandes subidas e à «estrada áspera e muito acidentada» até Santiago, em cuja entrada se deve tomar a direita da bifurcação. Santiago de Compostela, «com as suas estreitas ruas e velhos edifício[,] tem o aspecto de uma cidade da Idade Média», «não é centro ciclista». O que é um centro ciclista? Elogiam a importante cidade da Corunha, «um grande posto de comércio» e um «grande centro ciclista».

«À saída da Corunha», escrevem os esfíngicos ciclistas, «engano de estradas seguindo para Santiago por Carballo e Bayo. Depois nos doze quilómetros Laracha, boa hospitalidade em casa do farmacêutico José Astray Labasta que é um antigo ciclista.» Carballo ou Baños de Carballo é uma estação termal, que «fica a sessenta quilómetros de Santiago e só durante a estação termal que dura de Maio a Setembro dispõe de algum hotel asseado».

Os ciclistas seguem sempre e nunca dizem se vão fatigados, sobre que conversam, o que comem, como mitigam o sono, como se pedala à noite, com que luz, e, já agora, em que época do ano nos encontramos. Apesar de tantos silêncios, fico a saber que viram ao longe as luzes e o «casario branco» de San Adrés de Zás. «Rompe o luar que nos mostra a estrada em ligeira subida até Zás e alguns quilómetros planos depois.»

Palpita-me que vem aí informação mais suculenta. O relato aproxima-se do fim. Os redactores hão-de, por força, concluir alguma coisa e lançar um desabafo. Ninguém descreve trezentos quilómetros de bicicleta, seguidos, sem um ai ou um mas. Eis o remate:

«Sobre a direita a serra de Cabral e a esquerda o pico de Meda. Inclinação um pouco rápida de dois ou três quilómetros e subida depois aproveitando muito bem a acidentação do terreno sem rampas custosas. Depois de uns vinte e oito quilómetros andados desde Carballo, começa um vasto planalto absolutamente deserto que se prolonga quási até Santiago aonde chegámos às 3 ½ da manhã. Em dous dias de viagens os nossos pneus foram furados vinte e seis vezes, sendo nove na primeira etapa e dezassete na segunda, o que nos obrigou a grandes paragens e a uma vagarosa marcha durante a noute pois que dois tubos de ar estavam quási inutilizados e não podiam substituir-se em Santiago por não haver.

«Em consequência destes acidentes e ainda pela fadiga causada pelo enorme percurso de 197 quilómetros andados na segunda etapa por engano de estrada à saída da Corunha desistimos de completar a nossa viagem indo a Pontevedra e Vigo, como era do nosso programa.

Estradas em geral magníficas, excepção de uns pequenos bocados no trajecto de Santiago à Corunha como fica apontado no lugar competente.»

E assim termina o relato, em que três cavalheiros realizam um programa espantoso de velocipedia, mal se queixam do cansaço, nunca se orgulham do feito e quase pedem desculpa por não completarem o itinerário. São outros tempos.

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