Cartas de Gavazzo Perry e da senhora Laurinda

As cartas tinham uma fórmula de abertura muito bonita e repetitiva, pela qual se desejava a saúde dele e se afiançava a da sua mãe, que a seguir desfiava o que pretendia passar a escrito, às vezes entre lágrimas.

  • 20:58 | Terça-feira, 03 de Março de 2020
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Quando era menino, a minha mãe recebia em casa, depois do jantar, com uma periodicidade que já não recordo, a senhora Laurinda, que não sabia ler nem escrever e precisava de conhecer as notícias do filho e dar-lhe novas do que a si ia sucedendo. As cartas tinham uma fórmula de abertura muito bonita e repetitiva, pela qual se desejava a saúde dele e se afiançava a da sua mãe, que a seguir desfiava o que pretendia passar a escrito, às vezes entre lágrimas. Quando se fazia acompanhar pelo marido, este, tomado pela doença de Parkinson, ficava sentado, em silêncio, condenado a apenas escutar. A carta do filho fora lida no próprio dia ou na véspera, assim que o carteiro a depusera nas mãos da senhora Laurinda, que se via com informações preciosas sem as poder saber. Como quer que escreva? Está bem assim? A redacção levava mais de uma hora, creio que até passava por um rascunho, escrito no mesmo papel pardo com que o avô Maneco protegeu o livrinho velho de assentos pessoais, e era demorada pelas queixas e aflições que a vida traz em cada rotação da Terra.

Não posso dizer de onde veio esta memória, quando, na verdade, estava a ler a revista Tiro e Sport que o avô Maneco me entregou. Suponho que proveio do sentimento do tempo que rescende de uma crónica de actualidades subscrita por um tal João Pacífico, que não é senão o pseudónimo de Frederico Gavazzo Perry de Vidal, advogado, que viveu entre 1889 e 1953, e em 1904 era colaborador regular daquela revista. Há uma calma a entrar no assunto que me encanta no jovem autor de vinte e cinco anos. A memória é um bilhar com muitas bolas em acção. Além da escrita pausada, em que a Mãe anotava as preocupações e anseios da senhora Laurinda, ocorreram-me as cartas bairradinas de Albano Coutinho no tempo áureo dos biciclos.

“Estas semanas,» regista o jovem João Pacífico, «em que o Verão se despede de nós e os aguaceiros e vendavais do equinócio nos encharcam e assopram com desusada fúria, decorrem todas com uma monotonia terrível, para quem se vê forçado a apresentar notícias de sensação. Que acontecimentos podem dar-se na capital numa época em que todos fugiram para os arredores procurando brisas mais fagueiras ou ares iodados mais propícios ao bom funcionamento dos pulmões?”

Eu lhe respondo: corridas de bicicletas. Há?

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Publicado em Cultura