A poesia da bicicleta

Faz lembrada a fotografia do «grande Fernando Assis Pacheco», que «foi casar de bicicleta» e, ao lado dela, de pé, exibiu um «descomunal manguito ao maralhal».

  • 22:09 | Domingo, 14 de Junho de 2020
  • Ler em 2 minutos

Sou um apreciador da mecânica poética dos Sinais, de Fernando Alves, na rádio TSF. Em 3 de Junho, dia mundial da bicicleta, lembrou este veículo, que corre, ligeira, na poesia portuguesa. Imaginem a voz cava e melódica do jornalista a entrar no assunto com a lembrança de que Steve Jobs quis chamar bicicleta aos seus computadores.  «Aderi tarde ao computador e desisti cedo da bicicleta,» diz Fernando Alves, «tantas as mazelas das inumeráveis quedas, que nem sequer gloriosas.» Teme que seja tarde para «regressar ao pedal, embora saiba que Tolstoi tinha apenas mais um ano do que aqueles que tenho hoje quando decidiu aprender a andar de bicicleta». O autor de Guerra e Paz ia na idade de 67 anos. «Foi isso em 1895», diz Fernando Alves, «e há até, do notável facto, registo fotográfico».

Não podendo furar as estradas sobre duas rodas, Fernando Alves recomenda ao ouvinte que pedale no computador ou nos livros. Assim, qualquer um encontrará o poema A Bicicleta, de Alexandre O’Neill, no qual uma mulher se queixa do desaparecimento do marido, talvez levado pela polícia do Estado Novo:

O meu marido


saiu de casa no dia

25 de Janeiro. Levava uma bicicleta

a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,

vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,

blusão cinzento, tipo militar, e calçava

botas de borracha e tinha chapéu cinzento

e levava na bicicleta um saco com uma manta

e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo

e uma panela de esmalte azul.

 

Também podia ter lido o poema O Ciclista:

O homem que pedala, que ped’alma

Com o passado a tiracolo,

Ao ar vivaz abre as narinas:

Tem o por vir na pedaleira.

 

Faz lembrada a fotografia do «grande Fernando Assis Pacheco», que «foi casar de bicicleta» e, ao lado dela, de pé, exibiu um «descomunal manguito ao maralhal».
mersin escort bayan
Alude a Julio Cortázar, para quem o conto deve possuir as propriedades da bicicleta em andamento, equilibrada e rápida.

Faz presente os conselhos dados aos novos jornalistas de rádio, que deviam ser com a voz aquilo que um bom ciclista é com a bicicleta: um só. «Não deixes de pedalar», aconselha Fernando Alves. «Tenta apanhar a bicicleta do poeta que dá à pata nos pedais para o Verão interior. É a bicicleta de Herberto Hélder.» E declama:

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção

ao símbolo, por um dia de verão

exemplar. De pulmões às costas e bico

no ar, o poeta pernalta dá à pata

nos pedais. Uma grande memória, os sinais

dos dias sobrenaturais e a história

secreta da bicicleta. O símbolo é simples.

Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –

lá vai o poeta em direcção aos seus

sinais. Dá à pata

como os outros animais.

Gosto do artigo
Palavras-chave
Publicado por
Publicado em Cultura