Começar uma vida independente nunca foi um caminho fácil para um jovem. Recuando algumas décadas, o ponto de partida era, sob vários aspetos, ainda mais duro, visto que os pais não tinham tanta disponibilidade financeira para ajudar os filhos no arranque da sua vida adulta. Também a ideia de que no passado qualquer jovem comprava casa no centro das principais cidades não passa de um mito. Nessas zonas, o parque habitacional mais acessível era velho e degradado, enquanto a construção nova era muito cara. Isso ditou o contínuo crescimento dos subúrbios. Além disso, antes da entrada no Euro, as taxas de juro eram tão altas que o Estado apoiava a compra de casa própria através de um regime de crédito bonificado, pagando a parte de leão dos juros devidos aos bancos. Então, se era tão difícil, como é que os jovens conseguiam? Julgo que uma grande diferença residia nos hábitos financeiros dessa época, marcados por uma disponibilidade muito maior para poupar e amealhar.
Hoje, o enquadramento sociológico mudou profundamente. Como o país se tornou mais rico e os pais alcançaram um nível de vida muito mais elevado, muitos jovens usufruem de uma vida bastante confortável, durante anos a fio, na casa da família. Pelo contrário, nos anos 70, 80 e 90, a maioria dos agregados familiares era aquilo a que na altura se chamava de «remediados», pelo que a saída de casa e a transição para uma vida independente não exigiam um choque de realidade tão elevado. Era-se remediado e continuava-se a sê-lo, enquanto a vida não melhorasse. Assim, hoje sair de casa implica, não raras vezes, uma quebra abrupta no padrão de conforto quotidiano, gerando resistência, descontentamento e frustração. A isso junta-se o facto de os jovens entrarem cada vez mais tarde no mercado de trabalho, por força da frequência do Ensino Superior, o que é bom, releve-se, atrasando dessa forma o momento em que começam a construir uma poupança autónoma, essencial na hora de comprar a sua primeira habitação.
Contudo, não deixa de ser verdade que o contexto económico se tornou, nestes últimos anos, particularmente hostil. Primeiramente, o regresso da inflação no período pós-pandemia provocou uma visível perda do poder de compra. Em segundo lugar, se a política dos Vistos Gold andou anos a aquecer o mercado, o influxo migratório fez disparar a procura, procura essa não acompanhada por uma quantidade de nova construção adequada. Ficámos, assim, à mercê de uma tempestade perfeita, com muita procura, pouca oferta e uma bolha especulativa que fez o preço dos imóveis disparar para níveis proibitivos. Para agravar o estrangulamento da oferta, a pressão do turismo retirou milhares de imóveis do mercado tradicional, alastrando a subida de preços até às periferias das cidades e vilas, que historicamente serviam de refúgio às famílias mais jovens. Por conseguinte, tendo o fosso entre o preço mediano da habitação e os rendimentos líquidos atingido máximos históricos, mesmo um jovem poupado facilmente esbarra no limite da taxa de esforço no acesso ao financiamento bancário.
Ainda assim, considerando todas essas distorções de mercado, a ideia inicial mantém-se: nunca foi fácil começar a vida.
Olhando para o meu caso em particular, casei em 1995 e em 1996 comprei casa. Nessa altura dei uma entrada com o dinheiro que havia guardado do casamento e algum que, entretanto, tinha amealhado. A prestação bancária correspondia a cerca de 40% do total dos rendimentos do agregado. Andava de carro velho, como a maioria, e vivia com o dinheiro contado, sem grandes extravagâncias. Os anos foram passando, os rendimentos aumentando, e fui vivendo cada vez melhor, dando um passo de cada vez. Foi assim comigo, e terá sido assim com muitos outros. Então, dizer que antigamente é que era bom não é verdade. Talvez houvesse mais esperança e confiança no futuro, ou então aceitavam-se melhor as dificuldades, não sei.
Só sei que também não foi fácil.
Marco Girão