A França está do avesso e Macron é o menino assustado que vestiu o fato de presidente.
As imagens que nos chegam de Paris, Marselha e Limoges são o espelho do caos. O saque e o vandalismo saíram à rua e instalaram-se no coração das cidades. Manifestantes e encapuzados destruíram, incendiaram, semearam o pânico. Nada escapou à sua fúria demolidora. Impossível ficar indiferente às chamas, às montras partidas, às viaturas incendiadas, à devassa de edifícios públicos, à leva de estrago e depredação. O saldo é verdadeiramente aterrador. Um rasto medonho de destruição terrorista, o palco de uma batalha urbana. Aquilo que poderia ser uma onda gigante de denúncia da fragilidade das opcões políticas, orientadas e condicionadas por esse costureiro de luxos, que é Bruxelas, transformou-se numa voz de repúdio quase unânime pelo cenário de destruição brutal. Os danos colaterais, os prejuízos causados a quem vive do seu trabalho, tiram razão a quem chegou carregado dela. Não há descontentamento ou desespero que justifiquem tamanho grau de crueza e insensibilidade. É o preço que pagamos por manifestações não enquadradas, ao sabor da vertigem de líderes com o rosto tapado.
Por toda a Europa, o agravamento do custo de vida e o problema da habitação convocam milhões para desfiles de protestos. Justamente. Mas perde-se a vantagem que o direito confere quando se ultrapassam certas linhas. Os alicerces da democracia foram seriamente atingidos. A polícia, num excesso de resguardo, não compareceu, temendo, por certo, ser acusada de repressão. Quando hesitam na resposta aqueles a quem está confiada a segurança dos cidadãos, fica fragilizada a confiança neles depositada. Incomodou-me a sua ausência, como me incomoda o excesso da força e a falta de noção da proporcionalidade de meios.
Atrevo-me a pensar, e não sou adivinho nem lanço cartas, que esta luta, a ganhar contornos grotescos, despertará os instintos securitários, convenientes a quem sonha com ditaduras. Um pesadelo a evitar.
Rebelo Marinho