A ética revela-se quando o resultado não nos favorece

Infelizmente, ainda confundimos paixão com agressividade, exigência com humilhação e defesa de um clube com o ataque aos outros.

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  • 17:15 | Sexta-feira, 16 de Outubro de 2026
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Ser Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED) é muito mais do que divulgar uma mensagem. É assumir um compromisso com as pessoas e com os valores que dão sentido ao desporto. Uma missão que abraço com convicção, porque acredito que vale a pena lutar por um desporto mais humano, justo e respeitador.

Falar de ética é importante, mas praticá-la quando as coisas correm mal é o verdadeiro desafio. É fácil defender valores quando ganhamos. A dificuldade surge quando perdemos, quando somos contrariados ou quando sentimos que fomos prejudicados.


A frustração faz parte da competição. Nem sempre ganhamos, nem sempre somos melhores e nem sempre as coisas acontecem como desejamos. O problema começa quando transformamos uma derrota numa tragédia, um erro numa acusação ou um resultado numa medida do valor de uma pessoa.

O que muitas vezes rotulamos de insucesso não é mais do que o facto de o adversário ter sido melhor do que nós.

Precisamos de aceitar esta realidade e de ensinar os mais jovens a lidar com ela, sem humilhações nem dramatismos. Os erros e os fracassos fazem parte do crescimento. Em vez de procurarmos culpados, devemos procurar soluções, aprender e melhorar.

Treinadores, dirigentes, árbitros, pais e adeptos têm uma enorme responsabilidade. As crianças precisam de aprender, experimentar, errar e voltar a tentar. Precisam de exigência, mas também de compreensão. O desenvolvimento de um jovem atleta não se mede apenas pelos resultados, mas também pela pessoa que se torna ao longo do percurso.

Infelizmente, ainda confundimos paixão com agressividade, exigência com humilhação e defesa de um clube com o ataque aos outros. Apoiar uma equipa, vibrar com uma vitória e sofrer com uma derrota fazem parte do desporto. Insultar, ameaçar ou desrespeitar não.

Uma palavra de incentivo pode dar confiança a uma criança. Um insulto pode ficar-lhe na memória durante anos. Quando o medo de falhar ou de desiludir os adultos se torna maior do que a vontade de jogar, temos de parar e refletir. Alguma coisa está errada.

Não podemos exigir fair play aos atletas se, nas bancadas, damos o exemplo contrário. Não podemos pedir respeito às crianças se somos os primeiros a insultar. E não podemos falar de formação enquanto valorizarmos mais o resultado do que a educação. A mudança começa em cada um de nós, nas palavras que escolhemos, nas atitudes que assumimos e no exemplo que damos.

Precisamos de um desporto acolhedor, seguro e festivo, onde a vitória não justifique tudo e a derrota não seja uma vergonha. Um espaço onde saibamos reconhecer o mérito do adversário e compreender que nem todas as decisões desfavoráveis são injustiças.

A ética não se proclama apenas nos discursos. Demonstra-se nas atitudes, nas decisões e na forma como tratamos os outros, sobretudo quando perdemos ou quando ninguém está a ver.

Continuarei a defender um desporto onde as crianças possam crescer sem perder a alegria de jogar.

Porque o resultado passa. A formação fica. E, no final, tão importante como o desportista que ajudámos a formar é a pessoa que ajudámos a construir.

 

Vitor Santos | Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto

 

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