A ruptura

Hoje, somos feitos de outra massa, conformados, obedientes, adaptados. Os governos vão e vêm, os deputados vão e ficam, poucos são os que valem o investimento e a confiança. Tornam-se conhecidos, não pela diferença, mas pela inutilidade, um vazio que incomoda, e pelo carreirismo, que envergonha.

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  • 15:28 | Segunda-feira, 12 de Outubro de 2026
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A gente anda para aqui e por ali num carrossel de enganos. É mesmo de enganos. Melhor seria que fosse de ilusões. Não nos massacrava tanto, que ilusão é coisa que só a ganha quem quer, quem estiver para aí virado, submisso e amansado.

A crise sucede à crise, a penúria segue-se à penúria. Não há rasgo, ideia, projecto que nos tire do fundo da tabela. É fado, castigo, carrego pesado. Ninguém nos traz a alma que perdemos lá nos confins, nas noites acinzentadas, nas madrugadas de nevoeiro. Não há quem nos devolva a esperança, a força, o destemor que conduziu armadas e animou reconquistas.

Hoje, somos feitos de outra massa, conformados, obedientes, adaptados. Os governos vão e vêm, os deputados vão e ficam, poucos são os que valem o investimento e a confiança. Tornam-se conhecidos, não pela diferença, mas pela inutilidade, um vazio que incomoda, e pelo carreirismo, que envergonha.


À medida que vou envelhecendo, convenço-me que isto só se altera com uma mudança de políticas. E outras políticas não rimam com estes políticos, quase todos comprometidos com um sistema viciado, furado, que gangrena a cada eleição. Quase todos esgotados, fora do prazo de validade. Dançam as primas no mesmo compasso, tocam os militantes no tom igual. Cantam as cantadeiras da corte, afinadas no mesmo ritmo, ao assobio dos pastores, uns mãos-largas a satisfazerem a clientela de feira, uns esbanjadores do confisco.

Tudo se consome num arrastar dispendioso e caquético, sem vislumbre de um alento que galvanize, que acrescente, e que faça acreditar. E o povo, rejeitado pela fortuna, como um exposto na roda dos mosteiros, não reage, assiste, não contraria, participa, não inverte, segue, não corrige, assente. E vota neste LEGO de peças humanas que se multiplicam e perpetuam, numa procissão de cinismo, sem nada para oferecer de novo, de verdadeiramente interessante e que valha a pena.

Este rodopiar de teimosos lembra-me o poço da morte, na Feira Popular, quando, em miúdo, ia de férias a Lisboa, rebentavam-me num fingimento os primeiros pêlos faciais por entre a borbulhagem da idade.

Talvez seja tempo de uma ruptura.

 

Rebelo Marinho

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