“O tipo de ordem mundial que nos compete, a nós, nações amantes da paz, alcançar, haverá de assentar essencialmente em relações humanas amigáveis, no convívio, na tolerância, na sinceridade e na boa vontade e boa-fé inexpugnáveis.” – FD Roosevelt – 32º presidente dos EUA.
“O caos já não é a arma dos rebeldes, mas a chancela dos dominantes.” – Giuliano da Empoli – A Hora dos Predadores, Gradiva, 2025.
No decurso das seis décadas que separam estas duas citações, deparamo-nos com duas concepções geopolíticas radicalmente opostas.
Hoje, a propalada Nova Ordem Mundial, sustenta um alinhamento ideológico e político dos governos e dos organismos mundiais para uma unipolaridade titulada pelos EUA.
O conceito de unipolaridade designa uma situação na qual um único país ou um actante domina o sistema internacional. Pressupõe a existência de uma superpotência de ímpeto transnacionalista capaz de irradiar a sua influência à escala planetária, nos domínios político, económico, militar, cultural…
A Nova Ordem Mundial (NOM) visa a consolidação de uma governação mundial, de um império global, seja em matéria financeira, seja em matéria cultural, política, ambiental, etc. Ou seja, falar a uma única voz, a “voz do dono”.
Numa democracia iliberal as eleições são aparentemente livres, mas de facto, profundamente minadas para favorecimento do poder vigente, em geral, com minguada oposição política relevante, a mais das vezes inócua e só “autorizada” sob a capa ténue e cosmética de um inexistente pluralismo.
Numa democracia iliberal, todos os órgãos de controlo, como tribunais constitucionais e o poder judicial, em geral, passam a ser totalmente desvalorizados, postos em causa, assim como o Ensino passa a ser direccionado como meio de catequização e de inoculação da redentora “palavra”.
Nas suas alocuções, os porta-vozes do iliberalismo assumem-se como sendo a genuína e legítima vontade do povo, eliminando as minorias e alterando a Constituição e todas as leis adversas.
Os líderes do iliberalismo acicatam o ódio da população, sustentam-se na desilusão dos cidadãos, fomentam a desigualdade, ampliam a insegurança, pregam a xenofobia e aplicam-se na eugenia…
Da euroásia ao continente americano, passando pela decrépita e inane Europa, eles estão aí.
Poder esse nutrido não só pelos que se alimentam do caos, como também pelas ferramentas, como a Inteligência Artificial (ou melhor, Inteligência Autoritária) que está aí, excelentemente manipulada (até deixar de o ser) para prometer a harmonia global, manejada descontroladamente por empresas privadas que passam a ser, dotadas desta ferramenta, os novos e anónimos Estados-nação.
Kafka, em “O Castelo” (1922) tinha razão, mas ninguém lha deu…