Reclamações na saúde aumentam 23% com setor privado a concentrar subida

A análise revela que três em cada quatro reclamações registadas no setor da saúde em Portugal já dizem respeito ao setor privado.

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  • 18:08 | Terça-feira, 22 de Setembro de 2026
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As reclamações dos utentes sobre serviços de saúde aumentaram 23% nos primeiros nove meses de 2026, para um total de 4.700 queixas. O crescimento concentra-se sobretudo no setor privado, que acumula 3.564 reclamações, mais 30% do que no período homólogo, passando a representar 76% do total, contra 24% no setor público que sobe mais de 4%.

Os dados constam do mais recente Barómetro O Estado da Saúde em Portugal, da Consumers Trust Labs, realizado com base nas reclamações registadas no Portal da Queixa.

A análise revela que três em cada quatro reclamações registadas no setor da saúde em Portugal já dizem respeito ao setor privado. Contudo, os hospitais privados não explicam este crescimento. Pelo contrário, as reclamações nesta subcategoria diminuíram 2,37%, de 885 para 864. O crescimento do volume de conflitos está sobretudo relacionado com a expansão da subcategoria Produtos de saúde e bem-estar, que passa de 551 para 1.047 reclamações, um aumento de 61%. Esta subcategoria – referente à área do e-commerce da saúde – representa já 29,38% das reclamações da saúde privada, contra 24,24% dos hospitais.


 

Atendimento continua a ser principal foco de insatisfação

O atendimento clínico continua a ser o principal motivo de reclamação no setor privado, representando 32,55% das queixas. Seguem-se as questões financeiras e de cobrança, com 23,26%, e os problemas de acesso e prazos, com 23,06%.

Entre os hospitais privados, a CUF representa 35,42% das reclamações, seguida da Lusíadas Saúde, com 29,51%, do Hospital da Luz, com 18,98%, e da Trofa Saúde, com 13,08%. Em conjunto, estas quatro entidades concentram 96,99% das reclamações da subcategoria.

A evolução das reclamações é acompanhada por uma deterioração dos indicadores de satisfação no conjunto da saúde privada. A avaliação média dos consumidores desceu de 3,31 para 3,18 pontos, numa escala de 1 a 10. O contraste é particularmente relevante na subcategoria hospitais privados com a avaliação média a subir de 2,99 para 3,22 pontos.

Os dados sugerem, assim, que o aumento das reclamações no setor privado não está concentrado na experiência hospitalar, mas resulta de uma pressão mais transversal sobre os serviços e modelos de prestação de cuidados.

 

Hospitais públicos: Braga lidera reclamações 

No setor público, o atendimento clínico continua a liderar, com 41,81%, embora tenha registado uma redução de mais de 12 pontos percentuais face aos 54,38% de 2025. Ao contrário do setor privado, a satisfação global dos consumidores com a saúde pública melhora nos três indicadores analisados. A avaliação média passa de 3,00 para 3,21 pontos.

A entidade mais visada é o Serviço Nacional de Saúde que concentra quase metade das queixas, valor que sobe pelo terceiro ano consecutivo.

Já os hospitais públicos registam 554 reclamações, menos 1,95% do que no período homólogo. O Hospital de Braga é a entidade com maior peso, concentrando 8,66% das reclamações, seguido do Hospital Beatriz Ângelo, com 5,23%, e do Hospital Garcia de Orta, com 5,05%.

 

Conflitos descem nas urgências e Obstetrícia é a especialidade mais reclamada

As reclamações relativas a serviços de urgência diminuíram 8,79%, para 332 casos. A descida é mais acentuada nos serviços privados, onde as reclamações sobre urgências caíram 30,77%.

Ainda assim, as urgências representam 23,68% das reclamações nos serviços públicos, contra 7,13% nos privados. A Obstetrícia é a especialidade mais reclamada, concentrando 32,23% dos casos apurados. O peso é semelhante nos dois setores: 31,60% nas urgências públicas e 34,92% nas privadas.

 

Farmácias registam mais reclamações, mas melhoram satisfação

As farmácias e parafarmácias somam 268 reclamações, mais 11,20% do que no período homólogo. Os problemas relacionados com acesso e prazos, nomeadamente entregas, representam 35,07% das queixas, seguidos da qualidade do atendimento farmacêutico, com 23,51%, e das questões financeiras e de cobrança, com 21,64%.

Apesar do aumento das reclamações, esta é a subcategoria onde a satisfação mais melhora. A avaliação média passa de 3,47 para 4,03 pontos.

Os dados apontam, assim, para uma realidade em que o crescimento da procura por respostas de saúde no setor privado não está a traduzir-se num aumento generalizado das reclamações hospitalares, mas coloca uma pressão crescente sobre a experiência global dos utentes, nomeadamente nos tempos de resposta, no acesso e nas questões financeiras.

 

Para Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa, os resultados mostram que a análise da resposta do sistema de saúde não pode limitar-se ao volume de reclamações dos hospitais.

Se cada vez mais portugueses recorrem ao setor privado para ultrapassar dificuldades de acesso ao SNS, importa perceber se essa resposta consegue acompanhar não apenas a procura, mas também as expectativas dos consumidores. A qualidade da experiência começa no acesso e prolonga-se pela marcação, informação, faturação, atendimento e capacidade de resposta. É essa experiência global que também está refletida nas reclamações.

Segundo o responsável, “os dados deste barómetro mostram comportamentos diferentes entre setores, mas também revelam que a pressão sobre a saúde não se resume às portas dos hospitais. A capacidade de resposta mede-se cada vez mais pela consistência de todo o percurso do utente.”

 

Ficha técnica: análise quantitativa e qualitativa de 4.700 reclamações registadas no Portal da Queixa entre 1 de janeiro e 13 de setembro de 2026, com comparação com o período homólogo de 2025 e, quando aplicável, 2024. Estudo realizado pela Consumers Trust Labs.

 

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