Uma investigação desenvolvida na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP) realizada com agentes da PSP da Área Metropolitana do Porto indica que mais de 35% dos profissionais sofrem de stress elevado, mas o estigma ainda impede a maioria de procurar ajuda especializada.
Como lidam os agentes da Polícia de Segurança Pública com o stress de uma profissão marcada pelo risco constante e pela elevada exigência?
A resposta não está nos anos de serviço ou na patente que exibem na farda, mas sim na sua capacidade de gerir e regular as próprias emoções. Esta é a principal conclusão do estudo intitulado “Policing, stress and coping: a characterization study with Oporto Portuguese Security Police Officers” desenvolvido no Human Neurobehavioral Laboratory (HNL) do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano (CEDH) da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP).
Realizado junto de 123 agentes operacionais da PSP da Área Metropolitana do Porto, o estudo procurou compreender de que forma certos fatores sociodemográficos, ocupacionais e emocionais contribuem para os níveis de stress percebido e para a procura de apoio psicológico. No entanto, um dos dados mais preocupantes revela que, entre os polícias que registam níveis de stress acima do limiar clínico, apenas 16,7% admitiram ter procurado ajuda psicológica especializada. Segundo os investigadores, esta reduzida procura reflete o peso do estigma ainda associado à saúde mental nas forças de segurança, onde continua a prevalecer a imagem do agente imperturbável, o que leva muitos profissionais a encarar a manifestação de vulnerabilidade como um sinal de fraqueza individual.
A investigação analisou detalhadamente a supressão emocional, que consiste na tendência para conter ou não expressar as emoções. Embora esta estratégia seja uma ferramenta essencial durante emergências ou perigo iminente no terreno, o seu uso continuado e sistemático, sem um momento posterior de processamento emocional, pode contribuir para a acumulação de stress e aumentar significativamente o risco de burnout, ansiedade e depressão. A primeira autora do estudo, a investigadora Ana Moreno, explica que dois agentes com o mesmo posto e os mesmos anos de serviço podem passar exatamente pelas mesmas situações de risco no âmbito do seu trabalho, mas aquele que consegue identificar e diferenciar as suas emoções lida potencialmente melhor com o impacto da rotina do que aquele que enfrenta essas situações reprimindo aquilo que sente no dia a dia.
A equipa de investigação já tem os próximos passos delineados para transformar a teoria em intervenção prática. Estes passam pelo reforço da colaboração com os Mossos d’Esquadra da Catalunha e pelo desenvolvimento de programas contínuos de treino em competências emocionais, recorrendo a técnicas de mindfulness e biofeedback para ajudar os agentes a gerir melhor as emoções em situações de intervenção em crise.
A longo prazo, a equipa pretende contribuir para que estas práticas passem a integrar, de forma estruturada, a formação inicial e contínua das forças de segurança, promovendo uma abordagem preventiva da saúde psicológica.