Os crimes em Portugal são cada vez mais sórdidos. A violência doméstica e os abusos sexuais ganham requintes, inexplicáveis à luz da razão e do bom-senso.
A crise, o desemprego, as dificuldades na habitação e as famílias disfuncionais não explicam tudo. Talvez o desespero, a incapacidade de lidar com as contrariedades e os problemas psicológicos expliquem uma pequena parte do problema. Mas há mais qualquer coisa para além disso, que talvez a ciência saiba justificar. A premeditação, o escabroso e o gozo em fazer sofrer revelam personalidades fora da norma, mesmo fora do criminoso comum.
Quando o crime atinge friamente pessoas do mesmo sangue, talvez estejamos no fim da linha. A facilidade com que se mata e se abusa, em casa e na escola, sem sinais de arrependimento, é sinal do falhanço da sociedade actual. Talvez tenhamos falhado todos, errado todos. Estado, pais, famílias, professores, comunidade. Talvez tenhamos gerado vidros, peças de porcelana, em vez de pessoas. Educados sem regra, impreparados para a vida. Sem saberem superar uma frustração. Sem saber aceitar um “não”. Talvez tenhamos desvalorizado princípios e regras.
No crescimento, a todos tudo é permitido. Mas a vida, as rivalidades, a competição, nada desculpam. Os pais e a escola são permissivos, excessivamente protectores, passam o tempo com os meninos ao colo. Têm medo de castigar, como se o castigo fosse rejeição.
Caminhamos para um tempo em que não sabemos viver em sociedade pela simples razão de já não sabermos o que ela é. E quando alguma peça da engrenagem salta, é a explosão. Muitos destes crimes acontecem em casa, porque é lá que eles são alimentados no dia a dia das transigências.
Rebelo Marinho