O “sheriff” da Bobadela

O ministro, com ar gingão, de dedo em riste e nariz empinado, dissolveu-se. Luís Neves, o "sheriff", perdeu a autoridade como político que não sabe ser, e a credibilidade como ex-polícia que julgávamos à prova de bala.

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  • 14:48 | Segunda-feira, 20 de Julho de 2026
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Ele foi a piscina que se quis crer que era um tanque de rega, ele foi a empresa escondida da esposa, ele é os bidões com amoníaco, ele foi o atrelado da droga, que a Marinha exigiu que fosse retirado da sua propriedade por risco de explosão, ele foi a empresa de Barcelos a quem foi confiada a patriótica responsabilidade, ele foi a empresa do Minho não ter alvará.

Uma trapalhada de amadores ou de quem se julga impune ou a viver numa bolha. Ele tornou-se uma pessoa com a qual não queremos ter nada a ver.

Quem comandava o combate à corrupção não podia ter tido deslizes assim. Mas o mais inverosímil foi o empreiteiro de algumas obras na PJ ser o mesmo das obras realizadas no monte alentejano onde o ex-polícia descansava das agruras do ofício. Até pode estar tudo limpo – papéis e consciência – mas o percurso está armadilhado. Ninguém no seu juízo se deixa embrulhar numa confusão igual. E quando da transacção sai uma amizade duradoura os bons espíritos inquietam-se. Esta parceria público-privada cheira a esturro.

A história das facturas não passa disso mesmo: histórias. As facturas mostram apenas o que se quer revelar e mostrar. E isso é insignificante. O que verdadeiramente importa é o “modus operandi“, o facilitismo, a desfaçatez.


Ninguém, seja lá ele quem for, e onde for, que mexa em dinheiros públicos, muitos ou poucos, se pode permitir estas atitudes lamacentas. Não basta ser sério, é preciso também parecê-lo. E isso encontra-se nos detalhes, detecta-se nos pormenores.

O ministro, com ar gingão, de dedo em riste e nariz empinado, dissolveu-se. Luís Neves, o “sheriff”, perdeu a autoridade como político que não sabe ser, e a credibilidade como ex-polícia que julgávamos à prova de bala.

Não importa se fica ou se sai, continuar ou abandonar é só uma questão de oportunidade política. O certo é que, se houver critério e bojo institucional, sairá na próxima remodelação.

Mas até lá, já não será ministro, fará de conta que sim, que governa, mas será, já é, uma estátua de cera a derreter-se. Apenas um figurante que encontra em Fernando Alexandre o par ideal para o último tango.

 

Rebelo Marinho

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