Temos vindo a notar, de forma inversamente proporcional ao sucesso de medidas e reformas políticas fundamentais à boa governança, a prevalência da crescente existência de uma retórica muito AI, muito elaborada por bizarros e secretos gabinetes de comunicação que são edulcoradamente fornecidas aos inábeis detentores do poder.
Dela dotados, em resmas de papel A4 para todas as circunstâncias e conveniências os “power men”, de acordo com o debate ou a questionação de que são alvo, rapam do anexo A ou B ou C e debitam quilocalorias encomiásticas acerca dos seus actos e da sua governação.
Às palavras, com significado e significante escolhidos a dedo, num tom de exaltação triunfal, juntam expressões faciais de quase êxtase, de quem viu uma aparição numa azinheira, olhos luzindo e gestos magistrais, num todo coreograficamente solene e optimista que ilude crentes e fiéis, a elas se rendendo mesmo os mais obstinados críticos do regime.
Aqui e além, de modo esporádico e quase inconsequente, ouve-se um lamento, um desacreditado vage um murmúrio, um cético sussurra um quase inaudível som dubitativo.
Depois de os ouvirmos perorar sobre este paraíso terreno que eles nos permitiram franquear, entramos na fase 2, a da questionação da nossa saúde mental, da nossa consciência crítica e, daí à depressão é um mero passo, começando a culpabilizarmo-nos pela nossa cegueira que, persistente, nos oculta a visão do Eldorado.
A tribo, em geral, anestesiada com as transferências dos treinadores de futebol e com os crimes de faca na liga cometidos de poente a nascente, questiona o grau e a acidez do vinho e a dureza das iscas de cebolada, arrota e sentencia: — “São todos iguais!”